PORTUCÁLIA

Maio 20 2012

Getúlio Vargas: Fragmentos do Diário de uma Paixão

por Antônio Ribeiro de Almeida 

INTRODUÇÃO

Deve-se à pesquisadora Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta de Getúlio Vargas e membro do Centro de Pesquisas e Documentação de História Contemporânea do Brasil - CPDOC - da Fundação Getúlio Vargas, a publicação dos dois volumes do Diário de Getúlio Vargas. Este Diário ficou guardado durante muitos anos pela Sra. Alzira Vargas do Amaral Peixoto, mãe de Celina, que manteve completo silêncio sobre o mesmo. Alzira, pelo que relata Celina, tomara conhecimento das anotações que Vargas fazia nuns cadernos e perguntou ao pai sobre os mesmos e ele lhe disse que os havia destruído. Ela não se convenceu e quando recebeu a documentação do pai pesquisou aqueles escritos. 

Encontrou-os e começou uma classificação dos mesmos. Publicado em 1995 pela Editora Siciliano e a FGV ele mostra aos brasileiros um Vargas que não sonhavam existir. As gerações atuais apenas conhecem de Vargas pelos rótulos que lhe são postos como de "autoritário, fascista, o algoz de Olga Prestes". Desconhece-se o Vargas às voltas com os seus problemas domésticos, com a intrigalhada que o cercava e que ele busca desmanchar, como o homem que busca a solidão e a teme; como o homem que vive uma grande paixão, como o presidente que trabalhava altas horas da madrugada e que se confessa preso nas mãos do Exército e sem força para enfrentar nazistas como o General Dutra, Ministro do Exército e Góis Monteiro, chefe do Estado Maior. 

Ao iniciar o seu Diário no dia 3 de outubro de 1930 pode-se perceber nele um eco das Confissões de Rousseau quando escreveu : "Lembrei-me que, se anotasse diariamente, com lealdade e sinceridade, os fatos de minha vida como quem escreve apenas para si mesmo, e não para o público, teria aí um largo repositório de fatos a examinar e uma lição continua da experiência a consultar." (p.3). 

São possíveis muitas leituras do Diário, como, por exemplo, de seus conflitos psicológicos, do seu jogo diplomático com os Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra antes da Grande Guerra; da sua rotina de trabalho; do seu apego ao golf; etc. Neste estudo resolvi selecionar do seu Diário aquelas passagens que se referem à avassaladora paixão de que foi tomado pela Sra. Aimée Simões Lopes, esposa do seu ajudante de ordens Luís Simões Lopes. Meus comentários resultam do meu conhecimento histórico daquela época, algumas interpretações e do treino que como psicólogo tive dos meus estudos sobre o comportamento verbal. O que estiver em itálico refere-se ao que Vargas escreveu e no tipo arial ao que escrevi.. Que cada leitor deste artigo forme o seu próprio juízo sobre esta paixão do caudilho que dominou a vida política do Brasil por mais de quarenta anos, e, se pode dizer,em sua consciência, aquela frase que Rousseau escreveu no preâmbulo das Confissões : "je fus meilleur que cet homme-là" 

ANO DE 1936

Dias 10 e 11 de abril - sábado e domingo de Aleluia 
Durante as manhãs aproveitei esses feriados, como faço também nos dias úteis, para ler e trabalhar. Na tarde do primeiro dia, fui no auto do Luís, (aqui ele se refere a Luís Simões Lopes, marido de Aimée e que foi seu oficial de gabinete de 1930 a 1937) acompanhado de um ajudante de ordens e das duas irmãs, Aimée e Vera, duas alegres e inteligentes companheiras - a primeira senhora do Luís - passear no sítio do Salgado. Aí fizemos um longa passeio a cavalo regressando à tarde. É a primeira vez que aparece no Diário a referência a Aymée e a conotação como sendo alegre e inteligente. Teria começado neste passeio a simpatia de Vargas, depois transformada em paixão, para com a Sra. Aymée ? 

ANO DE 1937

Dia 17 de abril: Uma ocorrência sentimental de transbordante surpresa e alegria. Observe que somente um ano depois do encontro é que o envolvimento com Aymée ganha um significado mais profundo. Se fosse ao nível familiar ele teria escrito, mas, ao que tudo indica, é relativo àquela senhora.

Dia 29 de abril - Regressando ao Rio Negro (Palácio) aí despachei com os ministros da Marinha e da Guerra. Terminado o expediente, sai à tardinha para um encontro longamente desejado.(Provavelmente, este encontro é de uma entrega sexual.) Um homem no declínio da vida (Vargas estava com 55 anos) sente-se,num acontecimento destes, como banhado por um raio de sol, despertando energias novas e uma confiança maior para enfrentar o que está por vir. Será que o destino, pela mão de Deus (é uma das muitas vezes em que encontrei referência a Deus. Vargas era agnóstico e professava um Positivismo mitigado) não me reservará um castigo pela ventura deste dia? (Sentimento de culpa pelo possível adultério ?)

Dia 24 de maio - Tive ontem um dia bastante trabalhoso, pelo número de pessoas que recebi no Catete, audiências, volumoso expediente que despachei à noite. Contudo, à tarde, depois que regressei ao Catete, tive ainda uma deliciosa hora, talvez de despedida.(Como os encontros continuaram é de se supor que este encontro tenha sido de despedida da bem-amada que estaria viajando para algum lugar.)

Dia 9 de julho: Um acontecimento infeliz perturbou toda uma luminosa aventura que seria, talvez, uma consoladora despedida da existência.(Este registro é enigmático e Vargas não retorna nos dias seguintes a explicar o que teria sido. Como sempre existiu boato de que a Sra. Darcy Vargas conhecia as aventuras do marido,este acontecimento pode ter sido a descoberta que ela fez da existência da outra.) 

Dias 25 a 27 de julho Renova-se a aventura, beirando um risco de vida, que vale a pena corre-lo. (Por que risco de vida? Estaria manifestando um temor que o marido poderia conhecer o affaire e partir para uma vingança passional? O futuro das relações de Vargas com o marido não revelam isto, pois ele foi um constante colaborador de Vargas até 1954.) 

Dia 28 de julho: A falta de algumas audiências, além as poucas já designadas, dá-me uma sobra maior de tempo que permite a saída e o encontro feliz. Ao regressar examino e despacho um vasto expediente. 

Dia 5 de agostoFui para o Catete, despachei com os ministros militares e saí a dar um passeio com o Fiúza.(Refere-se a Iedo Fiúza, gaúcho e Diretor Geral do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem entre 1934-1945 e com quem o Presidente Vargas sempre saia nos seus passeios no Rio de Janeiro, e, observe-se, sem guardas). Vencendo desconfianças e hostilidades, pude novamente encontrar a luz balsâmica e compensadora dos meus dias atribulados. 

Dias 28 a 30 de agosto: O registro é longo sobre a atividade política, mas uma linha indica os problemas familiares que está vivendo. Dias amargos e de inquietação na vida particular. No dia 10 de setembro ele escreve : A Darci foi repousar em Poços de Caldas. 

Dias 21 a 24 de setembro: No meio de relatos da sua atividade Vargas anota : "tive oportunidade para alguns encontros felizes, podendo bem assinalar quarta, 22." 

Dias 13 a 15 de outubro Após os despachos, fui ao encontro de uma criatura que, de tempos a esta parte, está sendo todo o encanto da minha vida.

Dia 28 de outubro: Terminado o expediente, fui ao encontro da bem-amada. Neste dia o tratamento para com Aimée muda profundamente. Getúlio está apaixonado e sempre se referirá a ela como a bem-amada. Denominando-a desta forma, a bem-amada, ele está dando aos pósteros uma pista de quem é ela. Como Vargas falava fluentemente a língua francesa é quase certo que ele produz um jogo de palavras para que o nome dela fosse descoberto no futuro. Bem-amada, em português, e "bien-aimé", em francês. Acrescentando-se a letra "e" ao verbo temos Aimée, o nome da amada. 

Dias 9 e 10 de novembro : Nestes dois dias de um expediente exaustivo Vargas registra: Recebi ainda o embaixador do Uruguai e fui ver a minha bem-amada. 

Dia 17 de novembro Despachei com os ministros da Fazenda, Trabalho e o presidente do Banco do Brasil, fui ver a bem-amada...

Dia 23 de novembro Fui ver a bem-amada.

Dias26 e 27 : Recebo algumas audiências e vou encontrar-me com a bem-amada.

Dia 7 de dezembro Segui para o Guanabara (palácio) e daí fui ver a bem-amada.

Dia 12 de dezembroAniversário da Darci... à noite, recepção e baile. Mas a outra,que veio era a mais bela flor da festa. Estava elegantíssima. Houve muita alegria e animação. Um jornalista procurou conversar comigo para anunciar-me as previsões de morte violenta, no vaticínio dos adivinhos... (Parece que Vargas não dá maior atenção a esta previsão.)

ANO DE 1938

Dia 15 de março : Somente em março desse ano é que encontrei o primeiro registro relativo aos seus encontros com a bem-amada. Tudo indica que ela esteve viajando pelo Exterior nesses meses. 
Fui à cidade ver a bem-amada, que chegara. Ficamos a sós das 11 horas às 15 e meia. 

Dias 17 a 19 de março 
Vargas subira para Petrópolis, como fazia sempre, devido ao calor do Rio de Janeiro. Mas ele desce naqueles dias para atender o momento político. É provável que Iedo Fiúza soubesse do seu envolvimento afetivo com a Sra. Aimée. Como amigo manteve a mais completa discrição. Está no Diário : 
De lá (do Palácio Guanabara) fui com o Fiúza encontrar-me com a bem-amada. Estivemos das 5 às 8 e meia, jantamos...

Dias 26 e 27 de março
Vargas gostava imensamente das estações de água de Minas Gerais. Poços de Caldas, Araxá e São Lourenço são lugares que ele visita e permanece com a família e parte do governo com períodos de dez dias ou mais. Não interrompe seu trabalho e o avião é o meio que usa para receber e enviar seus despachos numa verdadeira ponte aérea com o Rio de Janeiro. Faz rigoroso tratamento nas águas, faz ducha, massagem,passeia muito a cavalo e joga golf que era seu esporte predileto. Naqueles dias registrou: Já na estação de Poços de Caldas... O encontro com minha mulher, postas de parte algumas queixas habituais foi afetuoso e conciliador. Mas estou inquieto e perturbado com a presença daquela que me despertou um sentimento mais forte do que eu poderia esperar. O local, a vigilância, as tentações que a rodeiam e assediam não permitem falar-lhe, esclarecer situações equívocas e perturbadoras. Amanhã, talvez, um passo arriscado ou uma decepção. O caminho se bifurca - posso ser forçado a uma atitude inconveniente.

Dias 28 e 29 de março 
O encontro realizou-se, a inquietação passou. A bondade divina não me abandonou. Amanhã deverei novamente enfrentar o risco que a força incoercível de um sentimento me inspirou e impeliu. Novamente inquieto. É muito provável que esta inquietação tenha surgido devido ao sentimento de culpa pelo adultério. Embora não fosse católico praticante a formação ética de Vargas vem da religião Católica. 

Dia 30 de março
Levanto-me cedo e vou a rendez-vous previamente combinado. O encontro deu-se em plena floresta, à margem de uma estrada. Para que um homem de minha idade e da minha posição corresse esse risco, seria preciso que um sentimento muito forte o impelisse. E assim aconteceu. Tudo correu bem. Regressei feliz e satisfeito, sentindo que ela valia esse risco e até maiores. À tarde, joguei a partida habitual de golf e, à noite, fui ao jantar que me ofereceu o prefeito no cassino. Compareceram o interventor do estado ( Benedito Valadares) que tem me acompanhado assiduamente.... minha família e a alta sociedade aqui residente ou em estação de águas. Ela lá estava, sem contestação, a mais bela de todas. 

Dias 2 e 4 de abril em São Lourenço
Comecei a trabalhar no despacho do expediente.... A falta de contato com a bem-amada, a dificuldade de encontrar-me a sós, ao lado de sua constante presença e de seu irresistível encanto, perturbam-me com freqüência o trabalho que desejaria realizar, como lançam em meu espírito dúvidas e inquietações prejudiciais ao desempenho de minha missão. Veja-se o conflito que se instala no psiquismo de Vargas entre os deveres e a sua missão e a paixão que o domina.

Dia 6 de abril :
Foi um dia feliz. A vinda de um casal permitiu-me o encontro com a bem-amada, sofregamente desejado e bem aproveitado. Depois fomos a um churrasco em casa do Sr. Guimarães...trabalhos. Cansado, já agora sem amarguras. 

Dia 7 de abril 
Trabalho durante toda a manhã... Comecei a tomar notas sobre a entrevista coletiva... à tarde, novo encontro. Soube então que, por conversa telefônica transmitida a outra pessoa, comentava-se no Rio os meus amores. Que o assunto fora tratado em casa do Osvaldo Aranha (Ministro do Exterior, amigo, temperamental e fonte de alguns problemas para Vargas) que deveria vir aconselhar-me. Tenho dúvidas, à vista da leviandade do informante. Não está registrado que este aconselhamento tenha ocorrido. Vargas, como outros estadistas, sempre estabeleceu uma distancia entre ele e o outro que nunca permitia que fosse diminuída, mesmo entre ele e íntimos colaboradores. Por isto é que era um solitário. 

Dia 8 de abril 
Não saio do hotel. Despacho todo expediente vindo do Rio. Novo encontro feliz. A vida se regulariza, trabalho com satisfação. Uma trégua às inquietações provocadas por esta paixão alucinante e absorvente que, encontrando sua válvula normal de descarga, tranqüiliza por momentos e constitui um motivo de exaltação para trabalhar e produzir. Sinto, porém, que não pode durar muito. Este segredo tem no seu bojo uma ameaça de temporal que pode desabar a cada instante. 

Dia 11 de abril 
Levantei-me cedo. Fui às termas tomar água e, de regresso, um novo encontro feliz com a bem-amada. 

Dia 13 de abril 
À tarde, após o almoço, encontro com a bem amada. À noite, após o jantar, nova conversa com o general Góis, que terminou o relato de suas impressões. 

Dia 14 de abril 
Levantei-me cedo, fui às fontes tomar água. De regresso, encontrei-me com a bem -amada. Li muitos jornais, revi as provas da entrevista. Falta-me apenas a parte da siderurgia... Estou um tanto apreensivo com certos aspectos do caso sentimental. 

Dia 16 de abril - sábado de Aleluia
Houve um animado baile no cassino do hotel. Enquanto a música e o batuque soam e perturbam, eu fico no escritório a trabalhar. Tive uma notícia desagradável que vem confirmar o meu pressentimento sobre o caso sentimental. Talvez amanhã possa esclarecê-lo. Quem sabe se não será o começo do fim. 

Dia 18 de abril
Pela manhã fui às termas e, de regresso, encontrei-me com a bem-amada, resgatando os sobressaltos anteriores, largamente compensados por esses momentos felizes. Assinei decreto proibindo atividades dos partidos políticos estrangeiros no Brasil (a proibição atingia o Partido Fascista que o governo de Mussolini apoiava nas famosas Casas da Itália, o Partido Comunista e o Partido Nazista também apoiados financeiramente por Moscou e Berlim)...novo encontro para a despedida. Vargas passaria o seu aniversário, dia 19, numa fazenda e era seu costume afastar-se naquele dia para evitar cumprimentos, bajulações. 

Dia 20 de abril 
Neste dia, o presidente está de volta a São Lourenço depois de passar seu aniversário. Chega de tarde, depois de visitar a igreja de Silvestre /Ferraz e ser aclamado pela população local. Escreve : Chegamos à tarde em São Lourenço. Encontrei-me com a bem-amada. 

Dia 21 de abril 
Levantei-me às 6 horas, apesar da gripe, fui às termas e, de regresso, novo rendez-vous, onde me despedi saudoso da bem amada. O intenso prazer do encontro compensou o pesar da próxima ausência. Vargas ainda permanece em São Lourenço e é provável que a Sra. Aimée, que fazia parte da comitiva, tenha regressado no avião da Panair com a Sra. Darcy Vargas. 

Dia 24 de abril 
Ainda em São Lourenço ele escreve : Tenho me comunicado por telefone com a bem-amada. 

Dia 27 de abril 
Preparando-se para retornar ao Rio, sempre pela Panair do Brasil, escreve que : À noite, após longa e inquietante espera, conversei longamente pelo telefone com a bem-amada e adormeci tranqüilo. 

Dia 29 de abril 
Ele, que já está no Rio, sobe a Petrópolis para buscar papeis . Para aquela cidade serrana dirigia-se a elite carioca para fugir do verão carioca e lá estava a Sra. Aimée. Vargas anota no diário : Partindo pela manhã almocei no Rio Negro (Palácio) e, enquanto o camareiro arrumava as coisas, fui encontrar-me com a bem-amada. Regressei à noite, sem novidade, e trabalhei até tarde. 

Dia 6 de maio 
Depois do expediente Vargas faz uma anotação que indica que ele e Aimée tinham um local (casa ou apartamento ?) para os seus encontros. Sai logo depois e fui encontrar-me com a bem-amada. Delicioso encontro, o primeiro no nosso ninho após o regresso. Refere-se ao regresso após a estação de águas em Minas Gerais. 

Dia 12 de maio 
Após o almoço, regressamos ao Catete. Aí despachei com os ministros da Marinha e da Guerra, recebi os oficiais promovidos e saí depois - fui ver a bem-amada. Fui só acompanhado por um amigo, como de costume. As emoções sofridas e recalcadas precisavam de uma descarga sentimental. Estas emoções se referem, certamente, ao ataque que os integralistas desferiram contra o Palácio da Guanabara na tentativa de tomarem o poder. 

Dias 17 e 23 de maio 
O dia 17 é marcado por novo encontro com a bem-amada, volumoso expediente e leitura até de madrugada. Já no dia 23, após encontrar a bem-amada, Vargas anota : Fui ver a bem-amada, O regresso,só, causou desconfiança e uma crise doméstica. Diz-se que pela intuição, sem ter nenhuma prova concreta, a mulher sabe quando está sendo traída. Seria o caso, certamente. 

Dias 27 e 30 maio 
Estes dois dias são marcados por novos encontros e por uma despedida. A Sra. Aimée viajaria por um longo período que prenunciava o fim do romance. Para onde, não está registrado no Diário. Dia 30 ele escreve : Amanhã casa minha filha Jandira e parte a bem-amada. Dois acontecimentos com repercussões diferentes. 

Dia 8 de junho 
Após as audiências, retiro-me vou a uma visita galante. Saio um tanto decepcionado. Não tem o encanto das anteriores. Foi-se o meu amor, e nada se lhe pode aproximar. Enigmático este trecho. Esta visita não foi à bem-amada que se encontra em longa viagem. Seria uma outra mulher com a qual Vargas teria relações antes de Aimée e na qual não encontro mais prazer ? O sentimento de perda está claro no "foi-se o meu amor..."

Dia 18 de junho 
Saí apenas à tarde para ir ao ponto do antigo encontro falar ao telefone com a bem-amada. 

Dia 31 de dezembro
O Diário não mostra nenhum registro sobre a bem-amada,seja do seu retorno de viagem ou de um reencontro com Vargas. Melancolicamente ele escreve : E assim passou-se,para mim, o ano de 1938, tendo uma ponta de amargura por alguma coisa longínqua, que era a minha fina razão de viver. Concluam que razão era esta. 


ANO DE 1939

Dia 15 de março 
Escrevi e enviei auxílio ao meu amor ausente, e despachei volumoso expediente.
No ano de 1939 é esta a primeira referência que faz à sua bem-amada. É provável que ela tenha acompanhado o marido, Luis Simões Lopes que chegou dos Estados Unidos no dia 26, onde fora em viagem acompanhando o Ministro do Exterior, Osvaldo Aranha. A Sra. Aimée teria ido com o esposo e ficado naquele país ? 

Dia 26 dezembro 
Recebi neste dia uma reprodução da espada de Cid, o Campeador, remetida da Espanha, uma carta de Mussolini, uma figa de Guiné e uma notícia que me encheu de alegria e fez renascer esperanças mortas. 

CONCLUSÃO 

Não encontrei nos anos de 1940, 1941 e parte de 1942 nenhuma referência mais à bem-amada. É curioso que Vargas não tenha registrado um final no seu affairecom a Sra. Aimée Simões Lopes. Ela, por seu turno, separou-se do marido e se tornou amante do jornalista Assis Chateaubriand que era um inimigo declarado do Presidente Vargas. Teria sido uma escolha ao acaso ou uma escolha ditada pelo coração de uma mulher que talvez esperasse que seu amante a assumisse? Eis uma questão em aberto. A 1 de maio de 1942 ele escreve no seu Diário : Quantos acontecimentos de grande transcendência ocorreram na vida do Brasil. Aqui chegando, tracei rapidamente estas linhas, dando por encerradas as anotações. Para que continuá-las após tão longa interrupção? A revolta, o sofrimento também mudou muita coisa dentro de mim! 

Os jovens do Brasil, neste ano de 2012, desconhecem como era a vida da classe operária antes da Consolidação das Leis do Trabalho que Vargas impôs ao patronato brasileiro em defesa do trabalhador. Esta CLT, hoje tão deformada e criticada, em nome da globalização, é que permitiu aos filhos da classe operária uma ascensão social nas décadas de 40, 50 e 60 do século XX. Sobre Vargas são sistematicamente veiculados na imprensa os chavões de fascista, ditador, anti-judeu, etc. Criou-se na memória coletiva das gerações que vieram após seu suicídio estes estereótipos e ficou completamente esquecida a sua obra de tentar libertar o Brasil do capital estrangeiro, da criação da siderurgia nacional, da estruturação do serviço público, etc.

Para os historiadores objetivos e desapaixonados, Vargas continuará sendo uma esfinge de quase impossível decifração. Uma vez, interrogado pelo escritor André Carrazoni que lhe pedia explicação de alguns dos seus atos, ele lhe deu uma resposta exemplar :Gosto mais de ser interpretado do que de me explicar. 

 

Sobre o Autor

Antônio Ribeiro de Almeida: Jornalista e escritor de São José do Rio Preto/SP.

Doutor em Psicologia Social, FFCLRP-USP

publicado por portucalia às 18:02

Março 17 2012

A ÚLTIMA MISSA DO GALO Antonio Ribeiro de Almeida

 

A Helena Córdova Cunha, tia e madrinha, que viveu aqueles tempos.

 

Era 1940, 24 de dezembro, véspera de Natal, uma terça-feira. Chovia que Deus mandava! Nunca, um dezembro fora tão chuvoso. As estradas para as fazendas só eram vencidas pelos carros de bois ou a cavalo. Isto, contudo, não impedia que os agregados da fazenda da Sá Helena viessem para a Missa do Galo. Eles enfrentavam o barro da estrada, com as botinas penduradas nos ombros, caminhando as quatro léguas para chegarem a Rio Branco. Vinham em turmas. Tagarelando, tocando sanfona de oito baixos e cavaquinho. Os mais afoitos dançavam em plena estrada, mesmo debaixo de uma chuvinha miúda, fazendo passar uma garrafa de pinga de mão em mão. Haviam saído da Fazenda São Francisco ao amanhecer.. Chegariam a tempo para o almoço na casa da fazendeira. Na cozinha de Sá Helena, o movimento era grande. Além da cozinheira Maria, três ajudantes haviam sido convocadas para preparar a comida para mais de vinte homens. Nada menos de dez galinhas já haviam sido degoladas para matar a fome da turma. Com a turma vinha também Sá Anja. Ela vivia na fazenda desde os tempos da escravidão. Não se sabia, ao certo, sua idade. Os cabelos eram brancos como o algodão. De pano amarrado na cabeça, um terço em volta do pescoço que caía sobre sua blusa de chitão, com saia rodada, ela compunha uma figura respeitável pitando seu cachimbo de barro. Seus pés revelavam uma pele mais grossa que o couro. Não havia espinho ou caco de vidro que ali penetrasse. Foram vãs todas as tentativas para que calçasse sapatos. Gostava de andar descalça, sentir sob os seus pés a terra. Católica, não aceitava o culto da umbanda. Para ela eram coisas do tinhoso, do mofento, do bode preto. Não perdia missa, mesmo fora das festas, e missa com a comunhão do Santíssimo. Por isto, todo domingo, fizesse chuva ou sol, ela vinha para a missa das dez horas na Matriz. Era meio-dia quando a turma chegou na casa de Sá Helena. Os rapazes foram se ajeitar num barraco do terreiro, enquanto Sá Anja, como mais chegada à fazendeira, entrou cozinha adentro, e logo se assentou, de cócoras, num canto. A chuva, que até então caíra fininha, parou de repente. O céu se abriu e um sol forte e luminoso afastou as nuvens. Devagarinho, ele foi secando os telhados, as árvores, as ruas e os terreiros. Passarinhos, que estavam recolhidos nos ninhos, voaram para todos os lados e começaram a ensaiar os seus cantos. A noite de Natal prometia ser de céu limpo, com muitas estrelas e lua nova. Chegou a hora da comilança. . Maria, a cozinheira, foi distribuindo os pratos pela rapaziada. Satisfeitos, com os estômagos cheios, eles improvisaram uma dança que só eles entendiam. Davam pinotes, passavam uma das mãos no chão, e, em seguida, gritavam em coro: “Vem que te furo. “ Sá Anja, depois do seu almoço, continuou acocorada no seu canto, fumando o seu cachimbo de barro, observando o movimento. Daí a pouco, chegou a fazendeira. - Então, Sá Anja, como vai você ? - Graças ao bom Deus vou bem, Sá Helena. - Como vai a nossa plantação de arroz ? - Ah, sinhá, não tem mais bonito não por aquelas bandas. As espigas estão carregadas. Vancê vai ver quando for por lá. - Muito bem, Sá Anja. Eu sei que posso contar com você e seus filhos. Vocês pegam mesmo no trabalho do amanhecer até ao anoitecer. Por isto é que vamos repartir a colheita à meia. - Sá Helena era uma fazendeira justa e seus agregados tinham toda assistência médica e farmacêutica que ela podia dar. Por isto não era bem olhada pela maioria dos fazendeiros da região que ainda tratavam seus agregados como escravos. A tarde passou depressa. A moçada dormia a sono solto debaixo do barraco. Sá Helena e Sá Anja foram ver o presépio da Dodoca. Era o mais lindo da cidade. A beata colocava toda sua imaginação e habilidade na montagem do presépio. Patinhos de plástico nadavam em lagos de espelhos, boizinhos e burros pastavam numa grama verde de papel, e até um monjolo, com água e tudo, subia e descia, fazendo “toc-toc’-toc”. No fundo, iluminado por uma grande estrela, o menino Jesus dormia sob os olhos vigilantes de Maria e José. Dodoca não deixava os visitantes sem uma xícara de café e sem o seu famoso bolo de arroz. A fazendeira, antes de sair, colocou uma moeda nas mãos da imagem de um anjo que agradeceu movendo, mecanicamente, a cabeça. As duas mulheres saíram satisfeitas e encantadas com o presépio. Agora, era esperar a chegada da noite. Antes disto a rapaziada foi toda faceira para o Jardim. Esperavam encontrar algumas cabrochas lá dos lados da fazenda, ou, quem sabe, começar um namoro com uma moça da cidade. - Às dez horas da noite, Sá Anja subiu a Rua do Divino em direção à Matriz. Ia bem cedo para pegar lugar no banco da frente, perto do altar, e fazer suas orações. Toda de branco, com o véu preto numa mão e o terço, como sempre, pendurado no pescoço. A matriz de S. João Batista era uma festa de luzes que subiam pela torre e iluminavam uma grande cruz que podia ser vista à distância. Ao entrar no templo, Sá Anja ajoelhou, como de costume, e fez o sinal da cruz. Por alguns momentos, ela contemplou, no altar central, a imagem imponente de S. João Batista apontando para o alto e tendo aos pés um cordeiro. Ela nunca compreendeu porque a imagem do santo era maior do que a do seu Jesus. Foi logo para o seu banco. Pouco a pouco, a igreja ficou repleta de fiéis. Com o terço na mão, ela ia rezando os mistérios do nascimento do menino Jesus. Mulheres de fita no peito apreciavam, à distancia, aquela preta velha. Vendo-a tão mergulhada na oração, não puxavam um pé de conversa como faziam entre si. À meia-noite em ponto, o padre começou a missa do Galo. Sá Anja ouvia com atenção “Dominus Vobiscum”, mas não compreendia aquele latinório. Olhava, fixamente, para o sacrário, e, no seu coração, pedia : “Menino Jesus, tem pena desta sua preta velha. “. Contrita, recebeu a eucaristia. Voltando para o seu banco, sentiu um sono profundo e uma irresistível vontade de dormir. Fechou os olhos e adormeceu. Sua vizinha de banco pensou que ela estava cansada e não a incomodou. Logo, o padre terminou a missa. Pouco a pouco a igreja foi ficando vazia. O sacristão, com a eficiência costumeira, foi apagando as velas do altar e ia começar a fechar as portas laterais quando avistou, adormecida, aquela preta velha. Tentou acorda-la. Em vão. Resolveu dar-lhe um leve toque nos ombros. Ao fazê-lo, o seu corpo tombou suavemente para o lado. Perplexo, saiu às pressas da igreja para chamar o vigário na Casa Paroquial. A igreja, mergulhada no silêncio e apenas iluminada pela luz mortiça da lamparina do Santíssimo, acolhia, naquele banco, o corpo de Sá Anja. Para ela, tinha, agora, pleno sentido, o latim que nunca entendera : “Ite, Missa est. “ Ela havia partido. Não mais para o seu rancho de sapé, mas para a Casa do Pai, ao encontro do Cristo que tanta amara.

publicado por portucalia às 23:40

PORTUCÁLIA é um blog que demonstra para os nossos irmãos portugueses como o governo brasileiro é corrupto. Não se iludam com o sr. Lula.Textos literários e até poesia serão buscados em vários autores.
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