PORTUCÁLIA

Maio 30 2012
 
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LIVRO 3

1. A consumição diária da vida, acompanhada da permanente redução doremanescente, não é a única coisa que temos de ter em consideração. Porque,mesmo que os anos de um homem se prolonguem, temos ainda assim de levarem linha de conta que é duvidoso que o seu espírito continue a manter a suacapacidade para a compreensão da actividade ou para o esforço contemplativonecessário à apreensão das coisas divinas e humanas. O começo da senilidadepode não envolver qualquer perda dos poderes de respiração ou alimentação,ou das sensações, impulsos, etc., contudo, a capacidade de usar plenamente assuas faculdades, de avaliar correctamente as exigências do dever, de coordenartodos os problemas que se lhe levantam, de ajuizar se chegou a altura de pôrfim aos seus dias na terra, ou de tomar qualquer outra das decisões querequerem o exercício de um intelecto experimentado, já está em declínio.Devemos, pois, apressar-nos, não simplesmente porque a cada hora nosaproximamos mais da morte, mas porque mesmo antes disso o nosso poder depercepção e compreensão começa a deteriorar-se.Outra coisa em que devemos reparar é no encanto e na fascinação que hámesmo nas casualidades dos processos da Natureza. Quando um pão, porexemplo, está no forno, começa a ficar com fendas aqui e ali; e estes defeitos,não intencionais, na cozedura, têm um carácter próprio, e aguçam o apetite. Osfigos, também, quando maduros, abrem-se em fendas. Quando as azeitonasestão para cair, a própria iminência do declínio acrescenta a sua beleza ao fruto.Assim, também a cabeça caída de um pé de milho, a pele enrugada de um leãoassanhado, o pingo de espuma caindo das mandíbulas de um urso selvagem, emuitas mais coisas deste tipo, não são nada belas se vistas em si próprias;contudo, como consequências de um outro processo da Natureza, elas dão asua contribuição para o seu encanto e atracção.2. Assim, a um homem de suficientemente profunda sensibilidade e capacidadede penetração intelectual nas obras do universo, quase tudo, mesmo que maisnão seja do que um mero subproduto de qualquer outra coisa, pareceacrescentar o seu galardão de prazer adicional. Um homem assim olhará asfauces escarninhas de um leão real com a mesma admiração com que olharia asua representação plástica feita por um artista ou por um escultor; e o olhar dediscernimento deixá-lo-á ver do mesmo modo o encanto maduro dos homens emulheres de idade e a frescura sedutora da juventude. Coisas deste tipo nãoatraem toda a gente; só quem cultivou uma intimidade real com a Natureza e assuas obras fica impressionado com elas.3. Hipócrates
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curou os males de muita gente, mas ele próprio adoeceu emorreu. Os Caldeus previram a morte de muita gente, mas o destino apanhou-ostambém a eles. Alexandre, Pompeu e Júlio César devastaram e voltaram adevastar cidades inteiras e abateram batalhões de cavalaria e infantaria emcombate, mas também a sua hora chegou. Heráclito
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especulava
Índice
 
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interminavelmente sobre a destruição do mundo pelo fogo, mas no fim foi a águaque lhe saturou o corpo e morreu num emplastro de excrementos. Demócrito
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foi destruído por insectos; Sócrates por insectos de outro tipo
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. E a moral detudo isto? Esta. Embarca-se, faz-se a viagem, chega-se ao porto: desembarca-se, então. Noutra vida? Há deuses por toda a parte, mesmo no além. Nainsensibilidade final? Então ficaremos fora do alcance da dor e do prazer, e jánão escravos desta embarcação terrena, tão incomensuravelmente maismesquinha do que o seu ministro assistente. Porque um é espírito e divindade; eo outro, apenas barro e corrupção
publicado por portucalia às 23:10

Abril 30 2012




Comento :  Passsei dois dias sem editar  o livro I das Meditações.  Retomo o Livro I, ítens 14 e 16 onde o imperador filósofo revela o que aprendeu com seu irmãpo e com o seu pai.  A leitura é oportuna e mostra o caráter de um romano onde existia grande equilíbrio e  paz interna nas suas faculdades.  Por isto vale a pena Vc. leer e MEDITAR  sobre estas partes.  Muita coisa aprenderá.  ARA





14. Com meu irmão Severo

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aprendi a amar os meus familiares, a amar averdade e a justiça. Por ele tomei conhecimento de Thraseia, Catão, Helvidio,Dião e Bruto, e familiarizei-me com a ideia de uma comunidade baseada naigualdade e liberdade de expressão para todos, e de uma monarquiapreocupada sobretudo em garantir a liberdade dos seus súbditos. Ele revelou-me a necessidade de uma avaliação desapaixonada da filosofia, do hábito dasboas acções, da generosidade, de um temperamento cordial, e da confiança noafecto dos meus amigos. Recordo, também, a sua franqueza para com aquelesque mereciam a sua repreensão, e a maneira como ele não deixava dúvidas aosamigos sobre aquilo de que gostava ou que detestava, dizendo-lho claramente.15. Máximo

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foi o meu modelo de autocontrole, firmeza de intenções e de boadisposição em situações de falta de saúde e de outros infortúnios. O seucarácter era uma mistura admirável de dignidade e encanto, e todos os deveresinerentes à sua condição eram cumpridos sem alardes. Deixava em toda a gentea convicção de que acreditava no que dizia e agia da maneira que lhe parecia acorrecta. Não conhecia o espanto ou a timidez; nunca mostrava pressa, nunca adiava; nunca se sentia perdido. Não se entregava ao desânimo nem a umaalegria forçada, nem sentia raiva ou inveja de qualquer poder acima dele. Abondade, a simpatia e a sinceridade, todas contribuíam para deixar a impressãode uma rectidão que lhe era mais inata do que cultivada. Nunca se superiorizavaa ninguém, e contudo ninguém se atrevia a desafiar a sua superioridade. Era,além disso, possuidor de um agradável sentido de humor.16. As qualidades que eu admirava no meu pai

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eram a sua brandura, a suafirme recusa em se desviar de qualquer decisão a que tinha chegado, a suacompleta indiferença às falsas honrarias; o seu esforço, a sua perseverança evontade de ouvir atentamente qualquer projecto para o bem comum; a suainvariável insistência em que as recompensas devem depender do mérito; o seuhábil sentido de oportunidade para puxar ou soltar as rédeas; e os esforços quefazia para suprimir a pederastia.Ele tinha consciência de que a vida social tem as suas exigências: os seusamigos não tinham qualquer obrigação de se sentarem à sua mesa ou de oacompanhar nas suas viagens oficiais, e quando eles eram disso impedidos poroutros compromissos, isso não lhe fazia qualquer diferença. Todas as questõesque lhe eram submetidas em conselho eram examinadas meticulosa epacientemente; nunca ficava satisfeito em despachá-las apenas com umaprimeira impressão apressada. As suas amizades eram duradouras; não eramcaprichosas nem extravagantes. Estava sempre à altura das circunstâncias;alegre, mas com uma visão de alcance suficiente para mandar discretamentecumprir os seus planos até ao mais pequeno pormenor. Estava sempre atentoàs necessidades do império, conservando prudentemente os seus recursos esuportando as críticas daí resultantes. Não era supersticioso frente aos deuses;e frente aos seus concidadãos nunca se rebaixava para alcançar popularidadenem namorava as massas, mas prosseguia o seu caminho calma e firmemente,desprezando tudo o que lhe soasse a ostentação ou moda. Aceitava sem

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complacência ou compunção os bens materiais que a sorte pusera à suadisposição; quando estavam à mão aproveitava-os, e quando não estavam, nãosentia qualquer mágoa.Não lhe podiam ser apontados quaisquer vestígios dos sofismas dos casuístas,do atrevimento do adulador, ou do escrúpulo exagerado do pedante; todos oshomens lhe reconheciam uma personalidade madura e acabada que erainsensível à lisonja e perfeitamente capaz de se orientar a si próprio e aosoutros. Além disso, tinha grande respeito por todos os filósofos genuínos; eembora abstendo-se de criticar os outros, preferia passar sem a sua orientação.Na convivência era afável e atencioso, mas sem exageros. Os cuidados quedispensava ao corpo eram razoáveis; não havia nele qualquer ansiosapreocupação de prolongar a existência, ou em embelezar a sua aparência,contudo estava muito longe de ser descuidado em relação a esta, e de factocuidava tão bem de si próprio que raramente precisava de cuidados médicos oude medicamentos. Não se notava nele o mais pequeno vestígio de inveja no seupronto reconhecimento de qualidades notáveis, quer em discursos públicos, quernos domínios da lei, da ética ou qualquer outro, e esforçava-se por dar a cadapessoa a oportunidade de conquistar reputação no seu próprio campo. Emboratodas as suas acções fossem guiadas pelo respeito pelo precedenteconstitucional, nunca abandonava o seu caminho para buscar o reconhecimentopúblico disso. Também não gostava da agitação e da mudança e tinha umaarreigada preferência sempre pelos mesmos lugares e sempre pelas mesmasactividades. Depois de uma das suas enxaquecas, voltava logo aos seusdeveres sem perda de tempo, com novo vigor e completo domínio das suascapacidades. Os seus documentos secretos e confidenciais não eram muitos, eos raros temas neles tratados referiam-se exclusivamente a assuntos do estado.Revelava bom senso e comedimento na exibição de espectáculos, naconstrução de edifícios públicos, na distribuição de subsídios, etc., tendo sempremais em vista a necessidade dessas medidas do que o aplauso que elasprovocavam. Os seus banhos não eram a horas inconvenientes; não tinha aobsessão de construir; não era nada esquisito em relação à sua alimentação,nem ao corte e às cores das suas vestes, nem à apresentação daqueles que orodeavam. As suas roupas eram-lhe enviadas da sua casa de campo em Lorium,e a maior parte das sua coisas eram de Lanuvium. A famosa maneira como eletratou um inspector em Tusculum era típica do seu comportamento, pois a faltade cortesia, bem como a brusquidão ou a jactância, eram estranhas à suanatureza; nunca ficava encalorado, como diz o povo, ao ponto de transpirar; eraseu hábito analisar e pesar todos os incidentes, devagar, calma, metódica,decisiva e consistentemente. Aquilo que se diz de Sócrates, não é menosaplicável a ele: que tinha a capacidade de se permitir ou negar a si próprioindulgências que a maioria das pessoas são incapazes de recusar por fraqueza,ou de apreciar, pelos seus excessos. Ser assim tão forte para, à sua vontade, seconter ou ceder revela uma alma perfeita e indómita — como Máximo tambémdemonstrou no seu leito de doente




publicado por portucalia às 22:14

Abril 28 2012

Comentário :  Publicarei no meu blog trechos de livros que formaram gerações.  As Meditações do Imperador romano Marco Aurélio é um destes clássicos.  Foi traduzido para muitas línguas e nas escolas do primeiro mundo a leitura das Meditações é obrigatória.  Começarei com o Livro I e o Hino de Cleantes que Marco Aurélio escreveu na Introdução do livro.  Ele usa o hino escrito por Cleanthes  que viveu entre 331-232 A.C. que considerava o universo como um SER VIVO e o  SOL  como o coração desse Ser.  A leitrura desse hino lembra um Deus Único e sua indicação como Arquiteto é  a forma como os maçons se referem a Deus como Arquiteto do Universo. É também muito interessante a indicação dos variados nomes deste Deus pois tanto os Judeus como os Árabes indicam nois seus livros sagrados, a Bíblia e o Alcorão, que Deus tem muitos nomes.   Deixo Você na leitura do Hino que para mim pode ser até  usado como uma Oração. Pretendo amanhã, dia  28, colocar trechos  do Livro I das Meditações.  Elas merecem ser lidas e guardadas no nossos corações e na nossa memória.  A.R. de Almeida

 

 

O HINO DE CLEANTHES

 

 

ALTÍSSIMA GLÓRIA DA COMPANHIA DOS CÉUS

,SENHOR DE VARIADO NOME. ETERNO E PERPÉTUO SEJA O TEU PODER

!ABENÇOADO SEJAS,Ó GRANDE ARQUITECTO DA CRIAÇÃO,QUE ORDENAS TODAS AS COISAS SEGUNDO AS TUAS LEIS

!EVOCAR O TEU NOMEÉ PRÓPRIO E JUSTO PARA O MORTAL,POIS SOMOS NASCIDOS DE TI;SIM, E A NÓS, SÓ A NÓSDE ENTRE TUDO O QUE VIVE E SE MOVE SOBRE A TERRA,É CONCEDIDA A VOZ E A PALAVRA

.CANTAR-TE-EI, POIS, LOUVORES, AGORA

!GLORIFICAREI, POIS, AGORA E PARA SEMPRE, O TEU PODER

publicado por portucalia às 00:34

Abril 01 2012

MEDITAÇÕES" DE MARCO AURÉLIO (fragmentos)

Na vida de um homem, o seu tempo é apenas um momento, o seu ser um
fluxo incessante, os sentidos uma vela mortiça, o corpo uma presa dos vermes,
a alma um turbilhão inquieto, o destino, negro, e a fama, duvidosa. Em resumo,
tudo o que é do corpo, é como água corrente, tudo o que é da alma, como
sonhos e vapores; a vida, uma guerra, uma curta estadia numa terra estranha; e depois da fama, o esquecimento. Onde, pois, poderá o homem encontrar o
poder de guiar e salvaguardar os seus passos? Numa e só numa coisa apenas:
a Filosofia.

Sê como o promontório contra o qual as ondas quebram e voltam a quebrar; mantém-se firme até que, por fim, as águas tumultuosas à sua volta se rendem e vão descansar. «Que infeliz sou, o que me havia de acontecer!» De modo nenhum; diz antes, «Que feliz que eu sou em não ter ficado com azedume, mas antes inabalado pelo presente e sem receio do futuro». Aquilo podia ter acontecido a qualquer pessoa, mas nem todos ficariam assim sem azedume. (...) Eis, então, uma regra a recordar no futuro, quando alguma coisa te tentar a sentires-te amargo: não «Isto é uma infelicidade», mas «Suportar isto dignamente é uma felicidade».

A arte de viver é mais como uma luta do que como uma dança, na medida em que também exige uma postura de firmeza e de alerta contra qualquer investida inesperada.

Quando os homens são desumanos, cuida de não sentires em relação a eles o mesmo que eles sentem em relação aos outros seres humanos.

Apaga as tuas noções daquilo que imaginas ser doloroso e então o teu eu fica invulnerável. «O meu eu — o que é isso?» A tua razão. «Mas eu não sou todo razão». Seja; nesse caso, pelo menos que a tua razão se abstenha de causar dor a si própria, e se outra parte de ti está com problemas, que os pensamentos sobre si própria sejam só da sua conta.
Se estás perturbado por qualquer coisa exterior, o sofrimento não se deve à coisa em si mesma mas à avaliação que fazes dela; e isto está em teu poder anular em qualquer momento.
Um homem pode estar junto de uma límpida fonte de água doce e cumulá-la de palavras injuriosas; mas ela continua a jorrar água fresca e sã; ele pode mesmo conspurcá-la com imundícies e porcarias, mas ela dissolve-as logo e lava-as rapidamente, ficando sem mácula. Como é que havemos de ser, nós próprios, senhores de uma tal fonte perene? Salvaguardando o direito de sermos senhores de nós mesmos em todas as horas do dia. 
publicado por portucalia às 00:13

PORTUCÁLIA é um blog que demonstra para os nossos irmãos portugueses como o governo brasileiro é corrupto. Não se iludam com o sr. Lula.Textos literários e até poesia serão buscados em vários autores.
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