PORTUCÁLIA

Março 19 2012

Jornal de Angola Online Segunda, 19 de Março 2012 16:41 Director: José Ribeiro Director Adjunto: Filomeno Manaças Pesquisa Avançada Início Política Regiões Mundo Economia Reportagem Sociedade Cultura Desporto Opinião Gente A Palavra do Director Citações Cartas do Leitor Colunas Artigos InícioOpiniãoCrónicas à Média Luz Crónicas à Média Luz Artur Queiroz | O Natal do imperador 25 de Dezembro, 2011 As águas de Novembro chegaram cedo e com elas a flor da acácia, rubra como aqueles dias de força indómita, a fortaleza de quem desenhou em África o mapa da liberdade. Os dias nasciam límpidos e nos quintais ninguém fazia caixotes gigantes para exportar os restos de um império em ruínas. Falávamos baixinho para não acordar os mortos nas trincheiras e na berma de todas as estradas de Angola. O mundo tocava sinos e havia suspiros de boa vontade nas ruas e praças das grandes capitais donde vieram matadores disfarçados de reis magos. A liberdade no beco vale menos do que na grande avenida. E quem é livre em Angola, só existe nos corações despedaçados dos que sofreram a guerra até à última gota de sangue. Naquele ano de 1975 ninguém se lembrou do Natal. Não por falta de respeito aos crentes. Muito menos para estragar a festa da família. Nesse ano ninguém entoou cânticos à renovação da vida, nenhuma voz cantou aquela roça grande, onde o suor do rosto dos contratados regava as plantações de café robusta, nas terras do Cazengo ou Ambriz. Estávamos em silêncio na ânsia de perceber como nasce um país livre, das cinzas, das ruínas, do luto. Luanda estranhava a falta dos seus vadios, dos seus artistas, dos que a viviam desde o sol aberto, da luz crua, à brisa suave da madrugada. Luanda não era invadida pelo exército de trabalhadores que moviam as engrenagens de produção de uma riqueza que se identifica por cifrões. Muitos partiram para outras paragens, outros para sempre e outros ainda estavam perdidos, mesmo às portas do paraíso anunciado. Os músicos guardaram os instrumentos para que não se gastassem antes da festa. Os cantores recolheram a voz, para cantarem mais forte do que a força do vento durante uma tempestade na serra do Lépi. Os pintores desarmaram as telas e ficaram a ruminar tristezas líquidas. Ninguém quis guardar para a posteridade uma cidade abandonada, precisamente quando ela mais precisava de um abraço terno. Havia medo nas ruas e o silê ncio nem sequer era perturbado pelo timbombar dos canhões que ainda hoje soam no peito dos sobreviventes e alimentam a vida dos resistentes, apesar dos pequenos mundos que se desmoronam fragorosamente à sua volta. Era Natal e o meu compadre Tarique entrou na redacção do “Diário de Luanda” para me convocar para uma ceia especial, que metia peixe imperador e um vinho acabado de chegar a Luanda na bagagem de um anjo salvador. Naquele tempo, quando havia peixe, era “espada” ou tubarão miúdo, apanhado à falsa fé no corredor do Mussulo. A ideia de comer um imperador animava um moribundo, quanto mais um repórter em vias de extinção. No Baleizão, lá ao fundo do corredor, na sala onde o Tarique recebia os amigos de coração aberto e mãos largas, já estava o comandante Eurico, o Estanqueiro, o Lito, o Colaço e o Armindo Alves de Oliveira, mais conhecido por Espinha. Na mesa havia copos vazios e pratos fumegando uma caldeirada aguada. Era a nossa ceia de Natal, com o esplendor de um vinho que afinal não chegou e a majestade de um peixe-espada esquálido, comum, desafiando fomes ancestrais. Aquele peixe imperador devia fazer parte de todos os banquetes nacionais e ter um lugar de honra nas cozinhas angolanas, quando o Natal aparecer de surpresa.

publicado por portucalia às 15:42

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