PORTUCÁLIA

Agosto 03 2013

A  ÚLTIMA MISSA DO GALO

 

                                                                                              Antonio Ribeiro de Almeida   (ribercor33@hotmail.com) 

 

                                                           A  Helena Córdova Cunha, tia e madrinha, que viveu

                                                           aqueles tempos.

 

Era 1940, 24 de dezembro, véspera de Natal, uma terça-feira.  Chovia que Deus mandava!  Nunca, um dezembro fora tão chuvoso.  As estradas para as fazendas só eram vencidas pelos carros de bois ou a cavalo.  Isto, contudo, não impedia que os agregados da fazenda da Sá Helena viessem para a Missa do Galo.  Eles enfrentavam o barro da estrada, com as botinas penduradas nos ombros, caminhando as quatro léguas para chegarem a Rio Branco.  Vinham  em turmas.  Tagarelando, tocando sanfona de oito baixos e cavaquinho.  Os mais afoitos dançavam em plena estrada, mesmo debaixo de uma chuvinha miúda, fazendo passar uma garrafa de pinga de mão em mão. Haviam saído da Fazenda SãoFrancisco ao amanhecer..  Chegariam a  tempo para o almoço na casa da fazendeira.

 

Na cozinha de Sá Helena, o movimento era grande.  Além da cozinheira Maria, três ajudantes haviam sido convocadas para preparar a comida para mais de vinte homens.  Nada menos de dez galinhas já haviam sido degoladas para matar a fome da turma. Com a turma vinha também Sá Anja.  Ela vivia na fazenda desde os tempos da escravidão.  Não se sabia, ao certo, sua idade.  Os cabelos eram brancos como  o algodão.  De pano amarrado na cabeça, um terço em volta do pescoço que caía sobre sua blusa de chitão, com saia rodada, ela compunha uma figura respeitável pitando seu cachimbo de barro.  Seus pés revelavam uma pele mais grossa que o couro.  Não havia espinho ou caco de vidro que ali penetrasse.  Foram vãs todas as tentativas para que calçasse sapatos.  Gostava de andar descalça, sentir sob os seus pés a terra.  Católica, não aceitava o culto da umbanda.  Para ela eram coisas do tinhoso, do mofento, do bode preto.  Não perdia missa, mesmo fora das festas, e missa com a comunhão do Santíssimo.  Por isto, todo domingo, fizesse chuva ou sol, ela vinha para a missa das dez horas na Matriz. 

 

Era meio-dia quando a turma chegou na casa de Sá Helena.  Os rapazes foram se ajeitar num barraco do terreiro, enquanto Sá Anja, como mais chegada à fazendeira, entrou cozinha adentro, e logo se assentou, de cócoras, num canto.

 

A chuva, que até então caíra fininha, parou de repente.  O céu se abriu e um sol forte e luminoso afastou as nuvens.  Devagarinho, ele foi secando os telhados, as árvores, as ruas e os terreiros.  Passarinhos, que estavam recolhidos nos ninhos, voaram para todos os lados e começaram a ensaiar os seus cantos.  A noite de Natal prometia ser de céu limpo, com muitas estrelas e lua nova.

 

Chegou a hora da comilança. . Maria, a cozinheira, foi distribuindo os pratos pela rapaziada.  Satisfeitos, com os estômagos cheios, eles improvisaram uma dança que só eles entendiam.   Davam pinotes, passavam uma das mãos no chão, e, em seguida, gritavam em coro: “Vem que te furo.

 

Sá Anja, depois do seu almoço, continuou acocorada no seu canto,  fumando o seu cachimbo de barro, observando o movimento.  Daí a pouco,  chegou a fazendeira.

-        Então, Sá Anja, como vai você ?

-        Graças ao bom Deus vou bem, Sá Helena.

-        Como vai a nossa plantação de arroz ?

-        Ah, sinhá, não tem mais bonito não por aquelas bandas. As espigas estão carregadas. Vancê vai ver quando for por lá.

-        Muito bem, Sá Anja. Eu sei que posso contar com você e seus filhos.  Vocês pegam  mesmo no trabalho do amanhecer até ao anoitecer.  Por isto é que vamos repartir a colheita à meia.

 

-        Sá Helena era uma fazendeira justa e seus agregados tinham toda assistência médica e farmacêutica que ela podia dar.  Por isto não era bem olhada pela maioria dos fazendeiros da região que ainda tratavam seus agregados como escravos.

 

A tarde passou depressa.  A moçada dormia a sono solto debaixo do barraco. Sá Helena e Sá Anja foram ver o presépio da Dodoca.  Era o mais lindo da cidade. A beata colocava toda sua imaginação e habilidade na montagem do presépio.  Patinhos de plástico nadavam em lagos de espelhos, boizinhos e burros pastavam numa grama verde de papel, e até um monjolo, com água e tudo, subia e descia, fazendo “toc-toc’-toc”.  No fundo, iluminado por uma grande estrela, o menino Jesus dormia sob os olhos vigilantes de Maria e José.  Dodoca não deixava os visitantes sem uma xícara de café e sem o seu famoso bolo de arroz.  A fazendeira, antes de sair, colocou uma moeda nas mãos da imagem de um anjo que agradeceu movendo, mecanicamente, a cabeça. As duas mulheres saíram satisfeitas e encantadas com o presépio. Agora, era esperar a chegada da noite.  Antes disto a rapaziada foi toda faceira para o Jardim.  Esperavam encontrar algumas cabrochas lá dos lados da fazenda, ou, quem sabe, começar um namoro com uma moça da cidade.

 

-        Às dez horas da noite,  Sá Anja subiu a Rua do Divino em direção à Matriz. Ia bem cedo para pegar lugar no banco da frente, perto do altar, e fazer suas orações.  Toda de branco, com o véu preto numa mão e o terço, como sempre, pendurado no pescoço.    A matriz de S. João Batista era uma festa de luzes que subiam pela torre e iluminavam uma grande cruz que podia ser vista à distância.  Ao entrar no templo, Sá Anja ajoelhou, como de costume, e fez o sinal da cruz. Por alguns momentos, ela contemplou, no altar central, a imagem imponente de S. João Batista apontando para o alto e tendo aos pés um cordeiro.  Ela nunca compreendeu porque a imagem do santo era maior do que a do seu Jesus.  Foi logo para o seu banco.  Pouco a pouco, a igreja ficou repleta de fiéis.  Com o terço na mão, ela ia rezando os mistérios do nascimento do menino Jesus.  Mulheres de fita no peito apreciavam, à distancia, aquela preta velha.  Vendo-a tão mergulhada na oração, não puxavam um pé de conversa como faziam entre si.  À meia-noite em ponto, o padre começou a missa do Galo. Sá Anja ouvia com atenção “Dominus Vobiscum”, mas não compreendia aquele latinório. Olhava, fixamente, para o sacrário, e, no seu coração, pedia : “Menino Jesus, tem pena desta sua preta velha. “.  Contrita, recebeu a eucaristia.  Voltando para o seu banco, sentiu um sono profundo e uma irresistível vontade de dormir.  Fechou os olhos e adormeceu.  Sua vizinha de banco pensou que ela estava cansada e não a incomodou.  Logo, o padre terminou a missa.  Pouco a pouco a igreja foi ficando vazia.  O sacristão, com a eficiência costumeira, foi apagando as velas do altar e ia começar a fechar as portas laterais quando avistou, adormecida, aquela preta velha.  Tentou acorda-la.  Em vão.  Resolveu dar-lhe um leve toque nos ombros.  Ao fazê-lo, o seu corpo tombou suavemente para o lado.  Perplexo, saiu às pressas da igreja para chamar o vigário na Casa Paroquial.  A igreja, mergulhada no silêncio e apenas iluminada pela luz mortiça da lamparina do Santíssimo, acolhia, naquele banco, o corpo de Sá Anja.  Para ela, tinha, agora, pleno sentido, o latim que nunca entendera : “Ite, Missa est. “ Ela havia partido.  Não mais para o seu rancho de sapé, mas para a Casa do Pai, ao encontro do Cristo que tanta amara.

           

publicado por portucalia às 16:24

Fevereiro 15 2012

APRENDENDO A LER

Antonio Ribeiro de Almeida

 


 

                                                            ribercor33@hotmail.com

                                                                      

 

                        Parece que foi ontem que tomei minha pedra de ardósia, meu caderno de caligrafia, a tabuada, minha goiabada com queijo e pão, coloquei-os no embornal para ir `a primeira aula na escola de Dona Olga.  No dia anterior, mamãe me dissera:

- Amanhã, filhinho, você vai entrar na escola da Dona Olga.

Eu esperava esta notícia com grande ansiedade. Já aprendera o alfabeto e sabia a tabuada de somar e diminuir.  Mamãe era de opinião que isto era  o mínimo que um filho seu deveria saber antes de entrar na escola.  Por isso, todas as manhãs, na cozinha ensolarada da nossa casa de pau – a-  pique, ela ensinava-me o alfabeto e os números. Naquele ano de 1940, não existia em Serrana jardins de infância e apenas algumas senhoras se dedicavam ao que hoje se chama ensino pré-primário.   A escola da Dona Olga era das mais conceituadas porque ela era enérgica, mas também carinhosa e dedicada aos seus alunos.  Na sua escola, nunca existira a temível palmatória que continuava a imperar na escola do “Seu”Fuinha  e na escola da Dona Marola. 

                        Não existia na região de Serrana uma didática única  para se ensinar a ler e a escrever.  Na roça, lá pelas bandas do São Francisco, quem ensinava as letras era mestre Teobaldo que usava sua sanfona de oito baixos para alfabetizar  e alegrar .À medida que ia escrevendo no quadro-negro as letras do alfabeto ele sanfonava  a “danadinha”( nome que dera ao instrumento) e cantava para a classe :

- Menino, que letra é esta?  

E a classe respondia, em coro:

-Seu mestre parece um A .

E neste clima alegre e folgazão os meninos do mestre Teobaldo iam aprendendo o ABC e a Tabuada. 

Mamãe, apesar de ser da roça e contar como era a escola de mestre Teobaldo, mudara para a cidade e me destinara à escola de Dona Olga.  Tinha lá suas dúvidas quanto ao método do professor sanfoneiro.  Na véspera das aulas, ela levou-me à Papelaria do Lalemant e na Loja do Foca onde comprara  a pedra, um par novo de botinas e suspensório. Até aquele dia, eu usava botinas apenas aos domingos para ir à Missa e à matinê do Cinema Brasil onde passava o seriado “Flash Gordon no Planeta Mogon”.  Era o meu mundo, o mundo de um menino de seis anos.  Ir para a escola não me desobrigava, contudo, de ganhar os meus tostões  vendendo carambolas na rua e entregando, religiosamente, os tostões à minha mãe.

            A aula de D. Olga começava bem cedinho e, antes das sete horas da manhã, os alunos formavam filas no portão da sua casa.  Para começar aquele dia tão importante da minha vida,  eu passei, antes, na Igreja Matriz e aos pés da imagem de Santo Antônio pedi que me ajudasse, pois a ele fora consagrado.  Ele ajudara minha mãe a casar, donde sua fama de “casamenteiro”,  meu pai a  comprar  nossa modesta casa de pau- a- pique e a encontrar qualquer objeto que se perdesse.  De vez em quando, eu via minha mãe procurando alguma coisa e rezando, baixinho, a oração que um dia me ensinou : “Aonde vais, Antônio ? Vou contigo Senhor. Não! Comigo não irás. Ficarás no mundo para ajudar os homens a encontrarem o que perderam. “   E logo, logo, minha mãe encontrava o que havia perdido. Naquele dia, aos seus pés, eu pedira para que não deixasse que eu fosse mandado para o Seminário do Caraça, na região de Mariana.  Na minha família, ainda se adotava o costume antigo de se dedicar o primeiro filho homem a Deus e isto significava seguir a carreira eclesiástica.  O Seminário do Caraça era o terror para os meninos que ouviam coisas do arco da velha.  A disciplina era rigorosa e a vida começava às quatro horas da manhã com um banho na cachoeira, seguido de Missa às cinco horas, oração e café somente às sete horas.  Depois do café, vinham as aulas em que além do Latim, era ensinado até o Grego. 

            Depois de passar na Matriz, fui para a escola da Dona Olga.  Fui o primeiro a chegar. A casa, embora velha, deixava transparecer uma opulência de inicio do século.  Guardando a escada de mármore branco, dois leões esculpidos na pedra olhavam quem chegava.  Na varanda, na parede de fundo, divisei uma pintura meio desbotada pelo tempo. Rosas emolduravam uma cena campestre onde um menino e uma menina corriam num campo .  Ela, com seu chapéu de fitas  e ele empurrando um arco.  Parecia que a menina tentava alcançar o menino para também rolar o arco.  Eu nunca vira em Serrana uns meninos tão bem vestidos como aqueles. Estava ainda absorvido por aquela pintura de um jardim europeu quando  fui interrompido no meu devaneio por um menino que chegou :

            - Qual é o seu nome ?

            - Armando Batista.

            - O meu é Joaquim Belisário. Sou filho do dr. Belisário. Onde você mora ?

            - No Barreirinho, respondi meio contrafeito.

            - Eu moro na Praça.

Com aquela resposta, fiquei paralisado e não quis mais conversa.  O recém - chegado também me olhou displicentemente e não me deu mais atenção.  Morar na Praça era um privilégio para os filhos dos ricos de Serrana.  Naquele momento, eu me vi como o filho do sr. José Ribeiro de Almeida, operário da Usina Central, que morava numa rua sem calçamento e em casa de pau-a-pique, e um sentimento confuso, que não sabia ser de inferioridade, fez subir pelas minhas pernas um certo tremor que chegou até o peito.  Para disfarçar, olhei o céu e o sol que vinha nascendo no final da Rua Nova .  Outros meninos e meninas começaram a chegar.  Vinham em grupos, revelando uma camaradagem antiga.  Só eu chegara sozinho.  Estava, contudo, esperançoso.  No fundo de minha cabeça,ouvia a frase que minha mãe me dissera um dia e que sempre me repetia : “Meu filho, uma cigana que passou por aqui olhou sua mão e viu nela uma pinta.  Disse que você será, um dia, um grande homem”

            Instintivamente olhei a palma da minha mão para conferir se a pinta estava mesmo ali.  Finalmente, D. Olga abriu a porta da escola.  Era uma senhora idosa, magra, usando um vestido preto e que a cobria até o pescoço.  Ordenou-nos que entrássemos em filas. Meninos de um lado e meninas do outro. Assentei na última carteira e retirei do meu embornal o material escolar.  Olhei, de soslaio, outros meninos que retiravam o material de vistosas pastas de couro.  D. Olga fez a chamada e começou sua aula pela Cartilha da Vovó.  No final do primeiro mês, eu já estava lendo sentenças que usavam todas as letras.  Cada aluno ia para frente e, de pé, lia a frase que a professora apontava.  Ainda recordo que a primeira leitura que fiz foi :  “A ave vive e voa.  Vovó viu a uva e o neto.” Mas eu nunca vi vovó. 

            Hoje, passados tantos anos e já velho, quando vejo uma uva num super-mercado, aquelas frases sempre voltam à minha memória como um “ritornello”do Bolero de Ravel. Na Cartilha, a vovó viu a uva , mas eu não sei se minha avó viu mesmo, algum dia, a uva.  Eu ainda vivo e aves vivem e voam.  Sobre minha casa passam pombos e rolinhas em revoadas.  De vez em quando, até periquitos de um verde-cré.  Em mim, voam estas recordações da infância que procuro aprisionar em palavras.  Quando não estiver mais aqui para onde irão as minhas recordações e as recordações daquelas outras crianças que aprenderam a ler na Escola da D. Olga ?  

 

 

publicado por portucalia às 22:34

PORTUCÁLIA é um blog que demonstra para os nossos irmãos portugueses como o governo brasileiro é corrupto. Não se iludam com o sr. Lula.Textos literários e até poesia serão buscados em vários autores.
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