O SÁBADO DO TIÃO “ CHEIROSO ‘
Antonio Ribeiro de Almeida
Tião “Cheiroso” era um preto como raramente se vê neste Brasil de início do século XXI, pois as uniões inter-raciais multiplicaram-se e surgiu um tipo de brasileiro que é denominado de “pardo”. Mas, por volta de 1956, ainda existiam em Minas Gerais, e, especificamente, em Serrana, negros descendentes dos que vieram para a Zona da Mata depois que terminara a fase de exploração do ouro nas minas e nos rios de Ouro Preto e Mariana. Tião orgulhava-se de ser da raça Bantu. Era um negro dos seus trinta e poucos anos, forte como um touro, alto, tronco desenvolvido e proporcional às pernas, pouca barba, dentes brancos como o marfim e olhos pretos, grandes e vivos e com um sorriso aberto e encantador. Havia perdido, numa das pedreiras da Usina Rio Branco, a mão direita quando marretava um bloco de pedra e uma lasca voou em sua direção e a decepou como uma navalha. Quem estava lá contou que ele fez um torniquete no braço que sangrava e foi levado numa camionete, sem gritar e gemer, mordendo um pedaço de pau, para o Hospital São João Batista. Tião “Cheiroso” ganhou este apelido devido à vaidade com que trajava seu terno de linho branco, tão branco de ferir as vistas, e os perfumes que usava e que anunciavam, de longe, sua presença. Todo ano o alfaiate Barretinho fazia, sob medida, dois ternos de linho para o Tião
Aposentado por invalidez, não se conformava em nada fazer. Vivia prestando serviços extras no armazém da Estrada de Ferro Leopoldina Railway. Quando se precisava de uma turma para carregar vagões de sacos de açúcar, de arroz , de milho ou de feijão, ele era o primeiro a ser contratado pelo agente da estação. Com a mão esquerda jogava sobre o ombro um saco de 60 quilos que carregava, sem esforço nenhum, para os vagões de carga. Morava, com sua velha mãe, numa das casas que a usina destinava aos operários na Barra dos Coutos. Na vida, tinha três orgulhos: o primeiro era ser o porta-estandarte na Festa de Nossa Senhora do Rosário, em cada 7 de outubro, quando, acompanhado pelos congadeiros, hasteava a bandeira da santa no adro da Igreja do Rosário. Mas antes disto, ele e os congadeiros cantavam, nas portas dos festeiros, músicas de origem tão remota que ninguém mais sabia onde e como haviam surgido. Com sua voz de baixo, Tião “Cheiroso” cantava, como num lamento, acompanhado por violões, cavaquinhos, pandeiros e batuques, uma música cuja letra era a seguinte :
“Oh Senhora do Rosário!, Oh Senhora do Rosário!
No peito eu carrego uma cruz. Dentro do meu coração, ai minha Mãe!
Pedi ao seu fio Jesus perdão pro seus fios negros, os seus fios negros,
Acode nóis, oh Senhora, nessa nossa aflição.
Pra sossegar, sossegar, o nosso coração.
Que alegria, que beleza, que bondade, vem do perdão de Nosso Sinhô.
Agora sim, agora sim, nóis desejamos alegria, beleza e bondade pra
Todos os irmãos. Estamos voltando, estamos voltando nesta Festa da
Mãe do Rosário. Vamos rever os queridos amigos e cantar pra vosmecês.
Recebam a força que vem lá de Deus e abram as portas, abram as portas
Pro negros do Rosário.”
Depois deste canto o festeiro abria a porta da sua casa dizendo “Podem entrar, meus irmãos” e doces, limonada, bolos, broa de fubá, sucos de frutas eram servidos pela dona da casa aos devotos do Rosário. E assim, de porta em porta, os negros iam cantando até chegar ao adro da Igrejinha de Nossa Senhora do Rosário. Ali, Tião “Cheiroso” hasteava a bandeira do Rosário e todo o cortejo entrava na igreja para assistir à missa. Naquele dia, pelo menos, a confraternização entre negros e brancos era completa.
O segundo orgulho do Tião era sua bicicleta inglesa da marca “Raleigh”. Como ciclista fazia misérias na arte de equilibrar e ficava até dez minutos, parado, sem cair. Participava também das corridas do dia 7 de Setembro e fazia o percurso Serrana-Ubá, sempre obtendo boa classificação.
O terceiro era sua nega, Maria Dolores, que fazia vida no Beco dos Aflitos. O beco fora batizado com este curioso nome porque se dizia que para ali os homens subiam aflitos, mas desciam tranqüilos. Localizava-se quase no centro de Serrana e era constituído por uma série de pequenas casas que haviam sido construídas numa rua de pedra fincada e era tão íngreme que nenhum automóvel a subia.
Essas casas consistiam de uma pequena sala mobiliada com um velho sofá, tendo, num dos ângulos da parede, um quadro de São Jorge ou outro santo, iluminado por uma lamparina ; o quarto dos amores e uma privada onde se destacava o vaso sanitário, o bidé e um chuveiro elétrico. As casinhas eram fechadas na porta da frente apenas por uma taramela de madeira, fixada por um prego, pois tal era a despreocupação com a segurança naqueles anos. As mulheres conheciam os homens que as procuravam e no dizer da época haviam “desmamado” os filhos das boas famílias da cidade. Maria Dolores, que exercia uma liderança reconhecida por todas, dizia e repetia por toda a cidade que “sua casa era uma casa de respeito e que os meninos das famílias podiam ir ao Beco sem nenhum problema e que suas mulheres eram limpas e livres de qualquer doença.”
Durante a semana Tião “Cheiroso” trabalhava como um leão, mas o sábado era esperado com alegria e ansiedade. Ao começar do dia ele lubrificava sua Raleigh, vestia uma roupa esporte, despedia-se de sua velha mãe e saía pedalando da Barra em direção ao centro de Serrana. No meio do caminho parava no bar do Marino, tomava uma dose da “Predileta” , sempre acompanhada por uma Brahma e de uns pedaços de chouriços. Batia um papo com quem estivesse por ali e perguntava ao Marino se tinha mulher nova no Beco dos Aflitos. Perguntava por perguntar, pois Tião era fiel à sua nega Maria Dolores , que, por sua vez, era fiel à sua maneira, pois nos sábados não recebia nenhum homem e se reservava para o seu querido negrão. No Bar do Ponto, se reunia com alguns amigos para o almoço daquele sábado gordo. Ali se encontrava obrigatoriamente com o Juca da Maninha, Lourival “Gago”, Elias “Maluco” e Toninho da Espanhola. Do grupo, somente Toninho era branco, os outros, pretos como Tião. O papo era longo e ia desde as cachaçadas do Turcão , o futebol carioca e o da cidade. Enquanto isto a feijoada era saboreada com sofreguidão ao lado da pinga e da cerveja. O assunto daquele sábado era o último jogo do Nacional Atlético Clube contra o Aymorés de Ubá e as incríveis defesas do Jorginho, goleiro destemido que ameaçava matar o atacante que invadisse sua área. No último jogo, quando o Nacional perdeu do Aymorés por dois a um, Jorginho- que nada tinha de pequeno, pois era um homem de dois metros de altura – empolgou a torcida do Nacional quando, após sofrer um gol marcado pelo atacante Pirilo, saiu correndo atrás do mesmo, dando o seu grito de guerra “Eu mato ! Eu mato ! Eu mato !”. Pirilo, que era magrinho e veloz, pulou o alambrado e foi se esconder no vestiário do seu clube. Com a enérgica intervenção do presidente do Nacional, sr. José Ribeiro de Almeida Sobrinho e do juiz João Lima, o goleiro se acalmou e parou de gritar : “Eu mato! Eu mato! Eu mato!” Alegando não ter mais segurança, o juiz suspendeu o jogo com a vitória do time ubaense. Naquela semana, em todas as rodas, os serranenses comentaram a partida de futebol que despertava brios e dividia a cidade entre aqueles que apoiavam o goleiro gigante e aqueles que achavam que ele deveria ser expulso do clube. Tião apoiava o goleiro do Nacional e bastou ele dar sua opinião para que os seus colegas também apoiassem. Depois do almoço, Tião retornava à sua casa na Barra dos Coutos para tirar uma soneca e preparar-se para a noitada. Lá pelas cinco horas da tarde foi acordado por sua mãe, Dona Terência para tomar uma canja reforçada. Antes disto, entrava numa banheira, onde sua mãe jogava baldes de água quente e fria, e tomava um banho demorado. A toalete era feita com requintes. Seu sabonete preferido era o Lux, pois lera na revista “O Cruzeiro” que “nove, entre dez estrelas do cinema, preferem Lux ” e que ele deixava a pele sedosa e perfumada. Tião, ainda influenciado pela propaganda do rádio, passava talco Ross por todo corpo e especialmente nas axilas, enquanto cantarolava a música que a Rádio Nacional irradiava nos seus programas : “Passa, passa,o talco Ross, quero ver passar. Passa, passa o Talco Ross, para refrescar.” Era um tremendo paradoxo ver aquele preto, tão viril e corajoso, cuidar daquela forma tão requintada do seu corpo e ter aderido à propaganda que começava a influenciar a vida do brasileiro.
Tião estava pronto para sua noite de sábado. Antes de sair, tomava a bênção da mãe que fazia, com um galho de arruda, três cruzes sobre o seu corpo, recitando uma velha oração que aprendera de uma escrava.
“ Meu Sãn Benedito, que é santo de preto.
Que na cozinha do convento serviu.
Venho pedi a vosmecê, pelo amor de Deus,
Pra proteger meu fio Tião.
Arreda pra longe seus inimigos.
Varre do seu caminho, os malditos e o Nojento.
Que alegre e feliz pra casa ele volte. Amém “
Depois de assim protegido pela oração da mãe, Tião tomava, novamente, o rumo do Jardim para começar sua noite de sábado. Sua primeira parada era no Cinema Brasil que, nos sábados, apresentava sessão dupla, isto é, um filme e um seriado. Naquela noite, com seu amigo Lourival “Gago”, foi assistir a um faroeste de Roy Rogers , “Cavalgada do Ouro” e ao seriado “Os perigos de Nyoka.” Roy Rogers com seu cavalo Triger , que só faltava falar, empolgava a platéia quando perseguia os ladrões da mina de ouro. Nesses momentos, a platéia não se continha e o som da corrida dos cavalos era acompanhado pelo bater dos pés dos assistentes que levantavam poeira no assoalho do Cinema Brasil. No final, Roy Rogers sempre vencia os bandidos e o filme terminava com o caubói cantor e seus amigos cantando uma bela canção do Texas. Sem intervalo, começava o seriado de Nyoka que enfrentava um terrível feiticeiro de uma tribo de índios antropófagos e que, trajado com penas, dentes e caveiras dos seus inimigos, tinha o curioso nome de “Samba”. O capítulo da série terminava com Nyoka vivendo um grande perigo e às portas da morte. As costumeiras perguntas deixavam a platéia em suspense : “Será que a rainha das selvas se livrará da armadilha que o terrível Samba preparou ? Veja no próximo capítulo da série, neste mesmo cinema.” Logo que saíam do cinema Tião e o Lourival “Gago” assentavam num dos bancos do jardim enquanto esperavam a chegada dos outros companheiros. Eles iriam para o Clube “Flor-de-Lys” , o clube dos pretos, cujo nome havia sido dado pelo “professor” Loriano que se dizia ser um preto estudado. Mas ninguém entendera o porquê do nome, pois a flor-de-lys era emblema da realeza e dos que sempre oprimiram a raça negra. Mas os próprios negros gozavam aquela sofisticação inoportuna e diziam, uns para os outros, se iriam no baile do “Mete a Pá”. Logo que os outros chegavam, o grupo se dirigia para o clube que ficava ao lado dos trilhos da Leopoldina Railway. Os bailes de sábado eram sempre animados pelo conjunto do Zé Lopes cujo acordeom Scandalli era acompanhado por uma bateria, um trombone de vara, um saxofone , uma cuíca. O conjunto produzia muita música ritmada para que os dançantes pulassem, mas, em alguns momentos, quando entrava o cantor Alaor Brasil, com as músicas de Nelson Gonçalves e Adelino Moreira, o clima era de puro romantismo. Zé Lopes, ajudado pelo “professor” Loriano, impunha respeito e evitava brigas no salão e não admitia sem-vergonhices. Antes de entrar no clube, o sócio deixava na portaria qualquer arma que carregasse. Tião deixou o seu revólver Schimidt-Wesson, 38 e, os seus companheiros, algumas armas brancas e garruchas. Quando Toninho da “Espanhola” viu o 38 do Tião resolveu provocar: “Vem cá, Tião! Ocê quando sai de casa não vem benzido pela sua mãe? Então, amigão, não confia na reza?” Tião deu um sorriso : “Oh da Espanhola e boa gente, trazer uma ajuda pro santo não custa nada. Não é ? “ Aos risos o grupo foi entrando no clube e cada um foi procurando sua cabrocha para dançar par constante durante toda a noite. Maria Dolores já esperava o Tião e foi logo dizendo : “Vem cá, meu negrão! Hoje, cê é meu.” Dolores estava de fazer inveja nas outras mulheres. De salto alto, vestido rosa de organdi, sobre uma anágua branca, mas sem usar calcinha, ela fazia uma bela figura. Os baiões de Luis Gonzaga e os sambas de Nelson Gonçalves eram os preferidos dos dançantes. Mas o baile pegava fogo quando o conjunto do Zé Lopes tocava a “Mula Manca” e todos cantavam, em coro, o versinho “não importa se a mula é manca, eu quero é rosetá, eu quero é rosetá...” Quando o baile atingia o seu auge, muito sabidamente, Zé Lopes dava uma abertura no seu acordeom e começava, em surdina, a tocar “A volta do boêmio” que Alaor Brasil cantava, impostando a voz e tentando imitar Nelson Gonçalves. Daquele momento em diante os pares dançavam juntinhos, rostos colados, quase não movimentando as pernas e um clima de romantismo impregnava o salão.
O tempo passou, e uma brisa já soprava do rio Xopotó que corria nos fundos do Flor-de-Lis, anunciando que a madrugada estava chegando. Tião “Cheiroso” e Dolores compreenderam que era a hora de ir embora. Com as mãos acenaram um adeus aos colegas e foram se retirando em direção da casinha de Maria Dolores no Beco dos Aflitos. A rua estava deserta e mergulhada num grande silêncio. Maria Dolores puxou , por um barbante, a taramela que abriu a porta do seu ninho de amor. Tião assentou um pouco no velho sofá, colocou o seu 38 numa mesinha e foi tirando sua roupa que mostrava seu corpo atlético. Dolores tomou o toco do seu braço e o cobriu de beijos. Falavam apenas a linguagem dos olhares e dos apaixonados beijos com que cobriam seus corpos. A cama de casal recebeu seus corpos jovens e cansados enquanto seus braços uniam seus corpos. Mal haviam trocado caricias mais íntimas, quando uma gritaria de mulheres e o barulho de arrombamento de portas quebraram violentamente o silêncio da noite. Tião pulou da cama e logo compreendeu o que se passava quando ouviu a voz raivosa do Turcão gritando “Nesta noite ninguém mete no Beco. Fora seus vagabundos! Fora suas vagabundas” Era um corre-corre de todos os lados e Maria Dolores, abrindo a janela do quarto, viu alguns homens pulando para o terreiro vizinho carregando suas calças, e, alguns de bunda de fora. O “Turcão” impunha o terror quando tomava suas cachaçadas e quatro homens fortes não conseguiam dominá-lo Ele já havia arrebentado as portas de vários quartos e a próxima seria a de Maria Dolores. Tião indicou à Dolores que ficasse atrás do guarda-roupa e girou a taramela deixando a porta apenas encostada. “Turcão”,antes de arrombar a porta da casinha, foi gritando: “ Oh, sua puta, Maria Dolores! Você ta aí com o seu negro ? Trata de se mandá pra não apanhar” e, mal havia acabado de praguejar, foi metendo o pé na porta que abriu de supetão com o Turcão caindo estatelado pela sala adentro quando foi escorado pelo toco do braço do Tião que, com a mão esquerda, lhe meteu o cano do 38 debaixo do queixo. À medida que ia apertando o pescoço do “Turcão” e enfiando o cano do revólver na sua boca, Tião perguntou com raiva :
- “ Eu e a Dolores não podemos o quê ? Repita, seu desgraçado ! “ Turcão tremia e mijava pelas pernas abaixo e gaguejando disse: “ Não, Cheirosinho. Desculpa, Cheirosinho! Vocês podem! Vocês podem! Desculpa, Cheirosinho”
- E qual é mesmo o nome da minha amada ? Repita : Dona Maria Dolores, me desculpa. “
Depois que o Turcão pediu muitas desculpas, afinando o quanto podia sua voz, Tião colocou o 38 na cinta e lhe meteu o pé na bunda colocando-o para fora da casa. A cama ainda os esperava para que fosse completa aquela madrugada de amor. E com a pureza dos primitivos eles se amaram, sem culpa e sem temores. O repicar alegre do sino da Matriz, que chamava os fiéis para a Missa das cinco horas, acordou Tião da sonolência em que se achava. Virando para Dolores , disse que era hora de ir. Descendo o Beco dos Aflitos, ele passou pela esquina da padaria do Sabione e olhou para os altos da Rua Nova, lá para os lados do Filipinho, onde a luz, vencendo a noite, anunciava a chegada do sol. Era domingo. Com esperança, e muito trabalho, ele viveria à espera do próximo sábado.