PORTUCÁLIA

Janeiro 10 2013

VII A COMADRE


Cumpre-nos agora dizer alguma coisa a respeito de uma personagem que representará no
correr desta história um importante papel, e que o leitor apenas conhece, porque nela tocamos de
passagem no primeiro capitulo: é a comadre, a parteira que, como dissemos, servira de madrinha ao
nosso memorando.
Era a comadre uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonachona, ingênua ou tola até um
certo ponto, e finória até outro; vivia do oficio de parteira, que adotara por curiosidade, e benzia de
quebranto; todos a conheciam por muito beata e pela mais desabrida papa-missas da cidade. Era a
folhinha mais exata de todas as festas religiosas que aqui se faziam; sabia de cor os dias em que se
dizia missa em tal ou tal igreja, como a hora e até o nome do padre; era pontual à ladainha, ao terço,
à novena, ao setenário; não lhe escapava via-sacra, procissão, nem sermão; trazia o tempo
habilmente distribuído e as horas combinadas, de maneira que nunca lhe aconteceu chegar à igreja e
achar já a missa no altar. De madrugada começava pela missa da Lapa; apenas acabava ia à das 8 na
Sé, e daí saindo pilhava ainda a das 9 em Santo Antônio. O seu traje habitual era, como o de todas
as mulheres da sua condição e esfera, uma saia de lila preta, que se vestia sobre um vestido
qualquer, um lenço branco muito teso e engomado ao pescoço, outro na cabeça, um rosário
pendurado no cós da saia, um raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma clássica
mantilha, junto à renda da qual se pregava uma pequena figa de ouro ou de osso. Nos dias dúplices,
em vez de lenço à cabeça, o cabelo era penteado, e seguro por um enorme pente cravejado de
crisólitas.
Este uso da mantilha era um arremedo do uso espanhol; porém a mantilha espanhola, temos
ouvido dizer, é uma coisa poética que reveste as mulheres de um certo mistério, e que lhes realça a
beleza; a mantilha das nossas mulheres, não; era a coisa mais prosaica que se pode imaginar,
especialmente quando as que as traziam eram baixas e gordas como a comadre. A mais brilhante
festa religiosa (que eram as mais freqüentadas então) tomava um aspecto lúgubre logo que a igreja
se enchia daqueles vultos negros, que se uniam uns aos outros, que se inclinavam cochichando a
cada momento.
Mas a mantilha era o traje mais conveniente aos costumes da época; sendo as ações dos
outros o principal cuidado de quase todos, era muito necessário ver sem ser visto. A mantilha para
as mulheres estava na razão das rótulas para as casas; eram o observatório da vida alheia. Muito
agitada e cheia de acidentes era a vida que levava a comadre, de parteira, beata e curandeira de
quebranto; não tinha por isso muito tempo de fazer visitas e procurar os conhecidos e amigos.
Assim não procurava o Leonardo muitas vezes; havia muito tempo que não sabia notícia dele, nem
da Maria, nem do afilhado, quando um dia na Sé ouviu entre duas beatas de mantilha a seguinte
conversa:
— É o que lhe digo: a saloiazinha era da pele do tinhoso!
— E parecia uma santinha... e o Leonardo o que lhe fez?
— Ora, desancou-a de murros, e foi o que fez com que ela
abalasse mais depressa com o capitão... pois olhe, não teve razão; o Leonardo é um rapagão;
ganhava boas patacas, e tratava dela como de uma senhora!...
— E o filho... que assim mesmo pequeno era um malcriadão...
— O padrinho tomou conta dele; quer-lhe um bem extraordinário... está maluco o
coitado do homem, diz que o menino há de por força ser padre... mas qual padre, se ele é um
endiabrado!...
Nesta ocasião levantava-se a Deus, e as duas beatas interromperam a conversa para bater
nos peitos.
Era uma delas a vizinha do compadre, que prognosticava mau fim ao menino, e com quem
ele prometera fazer uma estralada; a outra era uma das que tinham estado na função do batizado.
A comadre, apenas ouviu isso, foi procurar o compadre; não se pense porém que a levara a
isso outro interesse que não fosse a curiosidade, queria saber o caso com todos os menores detalhes;
isso lhe dava longa matéria para a conversa na igreja, e para entreter as parturientes que se
confiavam aos seus cuidados. Entrou pela loja do barbeiro; e apenas o avistou foi-lhe dizendo:
— Então, com que a tal comadre pregou-nos o mono? Veja o que são doidices; fazer
aquilo ao Leonardo, um homem que não é mal-arranjado... filho do Reino...
— Apertaram-lhe as saudades da terra, disse o compadre com sorriso maligno.
— Apertada se veja ela entre as unhas do tinhoso! Olhem que joiazinha... E você,
mestre, ficou com a carga às costas...
— Carga, não... eu quero-lhe bem, ele é sossegadinho...
Começou então um interrogatório minucioso acerca do que tinha sucedido em casa do
Leonardo; e os dois, compadre e comadre, desabafaram a seu gosto. Depois o compadre narrou,
mesmo sem ser interrogado, todas as gentilezas do afilhado, e contou suas intenções a respeito dele.
A comadre não concordou com elas (o que nada agradou ao compadre), não via o menino com jeito
para padre; achava melhor metê-lo na Conceição a aprender um ofício. O compadre porém persistiu
em seus intentos, que tinha muita esperança de ver realizados. Afinal a comadre retirou-se.
Pelo caminho foi repetindo o que acabara de saber a quanto conhecido encontrou, sem
escrupulizar muito em acrescentar mais uma ou outra circunstância com que carregava as cores do
quadro.
Entretanto o compadre aplicava-se a trabalhar na realização de seus intentos, e começou por
ensinar o ABC ao menino; porém, por primeira contrariedade, este empacou no F, e nada o fazia
passar adiante.
A comadre continuou a aparecer daí em diante por um motivo que mais tarde se saberá.
Por agora vamos continuar a contar o que era feito do Leonardo.
VIII O PÁTIO DOS BICHOS
Ainda hoje existe no saguão do paço imperial, que no tempo em que se passou esta nossa
história se chamava palácio del-rei, uma saleta ou quarto que os gaiatos e o povo com eles
denominavam o Pátio dos Bichos. Este apelido lhe fora dado em conseqüência do fim para que ele
então servia: passavam ali todos os dias do ano três ou quatro oficiais superiores, velhos, incapazes
para a guerra e inúteis na paz, que o rei tinha a seu serviço não sabemos se com mais alguma
vantagem de soldo, ou se só com mais a honra de serem empregados no real serviço. Bem poucas
vezes havia ocasião de serem eles chamados por ordem real para qualquer coisa, e todo o tempo
passavam em santo ócio, ora mudos e silenciosos, ora conversando sobre coisas do seu tempo, e
censurando as do que com razão já não supunham seu, porque nenhum deles era menor de 60 anos.
Às vezes acontecia adormecerem todos ao mesmo tempo, e então com a ressonância de suas
respirações passando pelos narizes atabacados, entoavam um quarteto, pedaço impagável, que os
oficiais e soldados que estavam de guarda, criados e mais pessoas que passavam, vinham apreciar à
porta. Eram os pobres homens muitas vezes vítimas de caçoadas que naquele tempo de poucas
preocupações eram o objeto de estudo de muita gente.
Às vezes qualquer que os pilhava dormindo chegava à porta e gritava:
— Sr. tenente-coronel, el-rei procura por V.S.
Qualquer deles acordava espantado, tomava o chapéu armado, punha o talim, acontecendo
às vezes com a pressa ficar o chapéu torto ou a espada do lado direito, e lá corria a ter com el-rei.
— Às vossas ordens, real senhor, dizia ainda bocejando.
O rei, que percebia o negócio, desatava a rir e o mandava embora.
Quando chegava o pobre homem abaixo, ia cada um dos que por ali se achavam indagar, o
mais seriamente que era possível, qual tinha sido o objeto do chamado del-rei.
Faziam-lhes destas e doutras, mas daí a pouco deixavam-se eles enganar de novo.
Vamos fazer o leitor tomar conhecimento com um desses ativos militares, que entra também
na nossa história.
Era velho como seus companheiros, porém decerto por ele não é que tinha vindo ao quarto o
apelido que lhe davam: suas feições quebradas pela idade tinham ainda certa regularidade de
contorno que bem devotava que seu tempo de rapaz não fora a respeito de beleza mal favorecido; de
seus cabelos que o tempo levara restavam apenas orlando-lhe as têmporas e a nuca alguns anéis
crespos e prateados; sua calva era nobre e imponente. Fora valente; ganhara por seus feitos as
dragonas de tenente-coronel; era filho de Portugal, e acompanhara el-rei na sua vinda ao Brasil.
Estas qualidades porém não lhe serviam de salvaguarda, e sofria como os outros as caçoadas
dos gaiatos.
Assim um dia que uma mulher de mantilha o foi procurar, e se pôs com ele a conversar por
algum tempo em particular, passavam uns e outros e escarravam junto da porta, ou deixavam
escapar uma ou outra chalaça análoga.
— Amores velhos nunca se esquecem, dizia um.
— Bravo! gosto do bom gosto, dizia outro.
A mulher de mantilha é nossa conhecida, porque nem mais nem menos é a comadre; e o
negócio que aí a levou também nos interessa, pois que se trata da soltura do pobre Leonardo. Ouça
portanto o leitor a conversa dos dois.
— Sr. Tenente-coronel, disse a comadre ao chegar, venho me valer de V.S.: meu
compadre Leonardo está na cadeia.
— O Leonardo?! mas então por quê?
— Ora! maluquices!
E chegando-se ao ouvido do velho, contou-lhe a comadre baixinho a causa da prisão do
Leonardo.
O velho desatou a rir.
— Bem pregado!... disse.
— Agora eu queria que V.S. fizesse o favor de falar por ele ao Sr. major Vidigal, que
foi quem o prendeu... coitado do homem: é uma vergonha; mas também ele não se emenda!
E prosseguindo, a comadre contou muito em segredo, como já o tinha feito a todos os seus
conhecidos, toda a história dos infelizes amores do Leonardo com a Maria, todas as diabruras do
menino que ela deixara e de que o padrinho tomara conta: passou depois a relatar todo o ocorrido
com a cigana, e voltou de novo à história da prisão, que contou e recontou vinte vezes, sem lhe
escapar a mais pequenina circunstância. No fim tornou a fazer o seu pedido, a que o velho prometeu
satisfazer, e então saiu ela recebendo no saguão muitos cumprimentos e sorrisos maliciosos. Na
porta por onde saiu estava encostado um cadete que lhe disse:
— Estimo que fosse feliz; no dia do batizado neo se esqueça da gente.
— Arrenego! foi a única resposta que ela deu, e passou.
Como o velho tenente-coronel conhecia a comadre e o Leonardo, e por que se interessava
por ele, o leitor saberá mais para diante.
Esse conhecimento era antigo, e o Leonardo apenas se achou na cadeia lembrou-se da
proteção que o velho lhe podia prestar em semelhante aperto; mandou por um colega chamar a
comadre, e a encarregou da missão de ir ter com ele, missão que ela aceitou de bom grado, e que
desempenhou, segundo vimos, satisfatoriamente.
O velho, apenas a comadre saiu, tomou o chapéu armado, pôs a espada à cinta e saiu, depois
de ter contado aos companheiros o que sucede a quem vai tomar fortuna. Um deles, que era crédulo
até ao entusiasmo a respeito de feitiçarias, ficou muito indignado com o caso, e prometeu também
empenhar-se pelo Leonardo.
Já vê pois o leitor que o negócio não estava mal parado, e em breve saberá o resultado de
tudo isto.

publicado por portucalia às 20:07

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