PORTUCÁLIA

Janeiro 08 2013

V O VIDIGAL

 


O som daquela voz que dissera “abra a porta” lançara entre eles, como dissemos, o espanto e
o medo. E não foi sem razão; era ela o anúncio de um grande aperto, de que por certo não poderiam
escapar. Nesse tempo ainda não estava organizada a polícia da cidade, ou antes estava-o de um
modo em harmonia com as tendências e idéias da época. O major Vidigal era o rei absoluto, o
árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que julgava e
distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua
imensa alçada não haviam testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo
em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que dava, fazia o que queria, e
ninguém lhe tomava contas. Exercia enfim uma espécie de inquirição policial. Entretanto,
façamos-lhe justiça, dados os descontos necessários às idéias do tempo, em verdade não abusava ele
muito de seu poder, e o empregava em certos casos muito bem empregado.
Era o Vidigal um homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão; tinha o olhar sempre
baixo, os movimentos lentos, e voz descansada e adocicada. Apesar deste aspecto de mansidão, não
se encontraria por certo homem mais apto para o seu cargo, exercido pelo modo que acabamos de
indicar.
Uma companhia ordinariamente de granadeiros, às vezes de outros soldados que ele escolhia
nos corpos que haviam na cidade, armados todos de grossas chibatas, comandada pelo major
Vidigal, fazia toda a ronda da cidade de noite, e toda a mais polícia de dia. Não havia beco nem
travessa, rua nem praça, onde não se tivesse passado uma façanha do Sr. major para pilhar um
maroto ou dar caça a um vagabundo. A sua sagacidade era proverbial, e por isso só o seu nome
incutia grande terror em todos os que não tinham a consciência muito pura a respeito de falcatruas.
Se no meio da algazarra de um fado rigoroso, em que a decência e os ouvidos dos vizinhos
não eram muito respeitados, ouvia-se dizer “está aí o Vidigal”, mudavam-se repentinamente as
cenas; serenava tudo em um momento, e a festa tomava logo um aspecto sério. Quando algum dos
patuscos daquele tempo (que não gozava de grande reputação de ativo e trabalhador) era
surpreendido de noite de capote sobre os ombros e viola a tiracolo, caminhando em busca de súcia,
por uma voz branda que lhe dizia simplesmente “venha cá; onde vai?” o único remédio que tinha
era fugir, se pudesse, porque com certeza não escapava por outro meio de alguns dias de cadeia, ou
pelo menos da casa da guarda na Sé; quando não vinha o côvado e meio às costas, como
conseqüência necessária.
Foi por isso que os nossos mágicos e a sua infeliz vítima puseram-se em debandada mal
conheceram pela voz quem se achava com eles. Quiseram escapar-se pelos fundos da casa, porém
ela estava toda cercada de granadeiros, em cujas mãos se viam a arma de que acima falamos. A
porta abriu-se sem muita resistência, e o major Vidigal (porque era com efeito ele) com os seus
granadeiros achou-os em flagrante delito de nigromancia: estava ainda acesa a fogueira, e os mais
objetos que serviam ao sacrifício.
— Oh! disse ele, por aqui dá-se fortuna...
— Sr. major, pelo amor de Deus...
— Eu tinha desejos de ver como era isso; continuem... sem cerimônia, vamos.
Os infelizes hesitaram um pouco, porém vendo que resistir seria inútil, começaram de novo
as cerimônias, de que os soldados se riam, antevendo talvez qual seria o resultado. O Leonardo
estava corrido de vergonha, tanto mais porque o Vidigal o conhecia; e procurava cobrir-se do
melhor modo com a sua imunda capa. Ajoelhou-se quase arrastado outra vez no mesmo lugar; e
recomeçou a dança, a que o major assistia de braços cruzados e com ar pachorrento. Quando os
sacrificadores, julgando que já tinham dançado suficientemente, tentaram parar, o major disse
brandamente:
— Continuem.
Depois de muito tempo quiseram parar de novo.
— Continuem, disse outra vez o major.
Continuaram por mais meia hora; passado esse tempo, já muito cansados, tentaram dar fim.
— Ainda não; continuem.
Continuaram por tempos esquecidos, já estavam que não podiam de estafados; o nosso
Leonardo, ajoelhado ao pé da fogueira, quase que se desfazia em suor. Afinal o major deu-se por
satisfeito, mandou que parassem, e sem se alterar disse para os soldados, com a sua voz doce e
pausada:
— Toca, granadeiros.
A esta voz todas as chibatas ergueram-se, e caíram de rijo sobre as costas daquela honesta
gente, fizeram-na dançar, e sem querer, ainda por algum tempo.
— Pára, disse o major depois de um bom quarto de hora.
Começou então a fazer a cada um um sermão, em que se mostrava muito sentido por ter sido
obrigado a chegar àquele excesso, e que terminava sempre por esta pergunta:
— Então você em que se ocupa?
Nenhum deles respondia. O major sorria-se e acrescentava com riso sardônico:
— Está bom!
Chegou a vez do Leonardo.
— Pois homem, você, um oficial de justiça, que devia dar o exemplo...-Sr. major,
respondeu ele acabrunhado, é o diabo daquela rapariga que me obriga a tudo isto; já não sei de que
meios use...
— Você há de ficar curado! Vamos para a casa da guarda.
Com esta última decisão o Leonardo desesperou. Perdoaria de bom grado as chibatadas que
levara, contanto que elas ficassem em segredo; mas ir para a casa da guarda, e dela talvez para a
cadeia... isso é que ele não podia tolerar. Rogou ao major que o poupasse; o major foi inflexível.
Desfez então a vergonha em pragas à maldita cigana que tanto o fazia sofrer.
A casa da guarda era no largo da Sé; era uma espécie de depósito onde se guardavam os
presos que se faziam de noite, para se lhes dar depois conveniente destino. Já se sabe que os amigos
de novidades iam por ali de manhã e sabiam com facilidade tudo que se tinha passado na noite
antecedente.
Aí esteve o Leonardo o resto da noite e grande parte da manhã, exposto à vistoria dos
curiosos. Por infelicidade sua passou por acaso um colega, e vendo-o entrou para falar-lhe, isto quer
dizer que daí a pouco toda a ilustre corporação dos meirinhos da cidade sabia do ocorrido com o
Leonardo, e já se preparava para dar-lhe uma solene pateada quando o negócio mudou de aspecto e
o Leonardo foi mandado para a cadeia.
Aparentemente os companheiros mostraram-se sentidos, porém secretamente não deixaram
de estimar o contratempo porque o Leonardo era muito afreguesado, e enquanto estava ele preso as
partes os procuravam.

publicado por portucalia às 21:17

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