PORTUCÁLIA

Dezembro 29 2012

Por Larissa Hirsch

Rua de todos, mas para a expressão de alguns muitos poucos. Na esquina da Prates com a Guarani, no Bom Retiro, surgia a música para se sentir a própria vida, não para escutá-la superficialmente como muitos faziam. A composição começaria a remexer nas ruas interiores das pessoas que passavam por ali…

O som partia de uma janelinha do prédio perto da padaria de casa. Era da moça que começava a tocar o universo das pessoas. Ela comunicava por meio da melodia os sentidos da vida que não sabíamos expressar livremente. Tocava de forma peculiar: ou mesclando notas e sílabas musicais conforme dada necessidade do gran público ou atingindo os interiores humanos com notas mais graves e agudas do que a vida era capaz de marcar, de cicatrizar tropeços e/ou acertos.

Os acordes da moça levariam as pessoas a se pensarem de outra forma, ou melhor, se repensarem pela primeira vez, tipo quebra-cabeça que falta peça e quando a achamos cabe no local mais ausente do que presente. A música mais que a pianista tinha o poder de harmonizar a alma, de estabelecer consonância de reflexões nos transeuntes daquela rua externa de ruas internas.

Foi quando percebi que tocava em mim há tempos, e eu não notava a combinação das notas. Lembrei-me de um pé de jasmim em Curitiba. Sentia-o em todas as férias de final de ano. Creio eu que ele se estabelecera no fundo do jardim de minha tia pelo perfume. A música trouxe o cheiro do jasmim para os finais de ano nos quais não pude viajar…para minhas férias urbanas de asfalto, com gosto de poluição.

Compositores de si próprios, as pessoas metiam-se para dentro de si, deglutiam a música e se lembravam de memórias esquecidas em tempos remotos e atuais, desde a infância até o agora.

As senhoras se repartiam em duas categorias existenciais: as donas de si, que interagiam com a música, a ponto de procurarem o som no ar e registrarem suas memórias naquela esquina, e as donas de alguém, que recordavam de tempos do agora, mas se submetiam a existências acostumadas em seus corpos cansados.

Senhores mais sisudos de si eram casos irremediáveis. Não se lembravam propriamente de nada e tinham se esquecido da porção restante, da vontade de abarcar e compartilhar momentos e sentimentos nobres com os outros.

As crianças, que fanfarra! Ficavam suspensas nos compassos e catavam o primeiro ritmo que passava pela frente. Mais do que brinquedo, repartiam-nos em pedaços de melodias e depois remontavam a percussão das brincadeiras em campeonatos fabulosos.

Quem silenciava a cadência musical interna desandava no tempo da nota e na pausa do compasso. E começaram a surgir casos patológicos de acordes em desacordes, de compassos em descompassos, com notas musicais pragmáticas para os mais superficiais de caráter e instrumentais para os mais vanguardistas de harmonias.

A causa de tudo foram partituras móveis, irregulares para seres não devidamente humanizados. Cada pessoa tinha uma nota ou mais grave menos aguda ou mais aguda menos grave, o que causou rebuliço nas curvas sonoras, ou melhor, nas curvas de variação temperamental dos seres.

O piano cessou e a música continuou. A mesmice não dobrou mais a esquina. Nem piano se fazia mais necessário para a percepção de músicas. A confluência de repertórios melódicos firmou ajustes de compasso para aqueles compositores de interiores que agora se captavam e percebiam a variedade de partituras que a vida lhes compunha.

Até agora não se sabe como aquela moça da melodia sumiu do bairro ou talvez nem sequer fez parte dele. O que se sabe é que ela veio diluída nas canções: de maneira aguda para solucionar os causos que requeriam paráfrases para o entendimento da vida, e grave para curar problemas mal resolvidos pelo tempo e que afligiam os sentimentos.

Suspendi no ar minhas pendências internas e sustentei no chão das memórias o pé de jasmim. A curiosidade pela cauda do piano permaneceria em minhas dissonâncias internas por muito tempo. Desconfio que preciso de (dó)bras de pensamento e de (ré)gras em (mi)niaturas de vida. (Fá)bulas fantásticas em (sol)stícios primaveris. (Lá) (si) vão anos de jasmim.

publicado por portucalia às 12:35

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