PORTUCÁLIA

Junho 21 2012
LIVRO 41. Se o poder interior que nos rege for fiel à Natureza, ajustar-se-á sempre
prontamente às possibilidades e oportunidades oferecidas pelas circunstâncias.
Não exige material predeterminado; na perseguição dos seus objectivos está
pronto para o compromisso; os obstáculos ao seu progresso são simplesmente
convertidos em matéria para seu próprio uso. É como uma fogueira a dominar
um monte de lixo, que se tivesse reduzido a um débil brilho; mas a chama
ardente depressa assimila a matéria, consome-a e dá ainda mais vida à
fogueira.
2. Não tomes nenhuma iniciativa ao acaso, ou sem teres em atenção os
princípios que regem a sua própria execução.
3. Os homens procuram a solidão no deserto, na praia ou nas montanhas — um
sonho que tu próprio tanto tens acarinhado. Mas tais fantasias são totalmente
impróprias de um filósofo, uma vez que em qualquer altura que queiras podes
recolher-te dentro de ti próprio. Não há para o homem refúgio algum mais
silencioso e mais tranquilo do que a própria alma; sobretudo para quem possua,
em si mesmo, recursos que apenas precisa de contemplar para assegurar uma
paz de espírito imediata — paz que é apenas outro nome para um espírito bem
organizado. Aproveita, pois, este retiro com frequência e renova-te
continuamente. Traça para a tua vida regras sumárias, mas que abranjam o
fundamental; o retorno a elas bastará para remover todas as aflições e te
reenviar sem desgaste para os deveres a que tens de voltar.
Afinal, o que é que te aflige? Os vícios da humanidade? Lembra-te da doutrina
que diz que todos os seres racionais são criados uns para os outros; que a
tolerância é parte da justiça; e que os homens não são malfeitores intencionais.
Pensa na miríade de inimizades, suspeitas, animosidades e conflitos que se
extinguiram juntamente com o pó e as cinzas dos homens que os
experimentaram; e não te aflijas mais.
Ou é a parte que te coube em sorte no universo que te agasta? Recorda uma
vez mais o dilema, «se não uma sábia Providência, então um simples
amontoado de átomos», e pensa na profusão de indícios de que este mundo é
como que uma cidade. São os males do corpo que te afligem? Pensa que o
espírito só tem que destacar-se e apreender os seus próprios poderes, para não
mais se envolver com os movimentos da respiração, sejam eles suaves ou
ásperos. Em resumo, recorda tudo aquilo que aprendeste e com que
concordaste a respeito da dor e do prazer.
Ou é a ilusão da celebridade que te perturba? Não percas de vista a rápida
investida do esquecimento e os abismos de eternidade que nos esperam e nos
precedem; repara como são ocos os ecos do aplauso, como são inconstantes e
sem discernimento os juízos dos pretensos admiradores, e que insignificante é a
arena da fama humana. Porque a terra inteira é apenas um ponto, e a nossa
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própria morada, um minúsculo canto nela; e quantos lá há que te vão louvar, e
que tipo de homens são eles?
Não te esqueças, pois, de te retirares para o pequeno campo do teu eu.
Sobretudo, nunca lutes nem te afadigues; sê, antes, dono de ti próprio, e encara
a vida como homem, como ser humano, como cidadão e como mortal. Entre as
verdades em que seria bom que pensasses estão estas duas: primeiro, que as
coisas nunca podem atingir a alma, mas apenas ficar inertes fora dela, de modo
que o desassossego só pode resultar de fantasias interiores; e segundo, que
todos os objectos visíveis mudam num instante e deixam de existir. Pensa nas
inúmeras mudanças em que tu próprio tomaste parte. Todo o universo é
mudança, e a própria vida não é senão aquilo que tu acreditas que é22 .
4. Se o poder do pensamento é universal no género humano, também a posse
da razão o é, fazendo de nós criaturas racionais. Donde, portanto, que esta
razão, com os seus «tu deves fazer isto» ou «tu não deves fazer aquilo» não é
para nós menos universal. Há, assim, uma lei-mundo; o que, por sua vez,
significa que somos todos concidadãos e partilhamos uma cidadania comum, e
que o mundo é uma só cidade. Há alguma outra cidadania comum que possa
ser reclamada por toda a humanidade? E é deste mundo-estado que o espírito,
a razão e a lei, eles mesmos, derivam. Senão, de que mais? Assim como a parte
terrena de mim tem a sua origem na terra, a parte aquosa num elemento
diferente, e a respiração numa e as partes quentes e ardentes noutra das fontes
de si mesmas, situadas algures (porque nada vem do nada nem pode regressar
ao nada), assim também deve haver uma origem para o espírito.
5. A morte, como o nascimento, é um dos segredos da Natureza; os mesmos
elementos que se combinaram, dispersam-se então. Nada nela tem de causar
pena. Para seres dotados de espírito, ela não é anormal, nem de forma
nenhuma incoerente com o plano da sua criação.
6. Que os homens de um certo tipo se comportem como o fazem, é inevitável.
Desejar que as coisas sejam de outra maneira é como desejar que a figueira não
produza o seu sumo. Em qualquer caso, lembra-te de que dentro de muito pouco
tempo, tanto tu, como ele, estarão mortos, e os vossos próprios nomes
rapidamente esquecidos.
7. Afasta de ti a ideia do «Fui ofendido», e com ela irá o sentimento. Rejeita o
teu sentido de ofensa, e essa ofensa desaparece.
8. Aquilo que não corrompe o próprio homem não pode corromper-lhe a vida,
nem provocar-lhe qualquer dano quer exterior, quer interiormente.
9. As leis da conveniência do colectivo exigiram que isto acontecesse.
publicado por portucalia às 14:51

É notável que um pagão, como Marco Aurélio, no meio de tantas guerras para manter o Império Romano, tenha tido tempo e sabedoria para escrever suas "Meditações" que contém muitos elementos do pensamento cristão.A História não registra que ele tenha tido conhecimento dos Evangelhos e ou mesmo da
Torá. Somente o Espírito Santo pode ter inspirado este imperador cujos pensamentos sobem aos céus e estão muito próximos do que ensinou Jesus Cristo. Vale a pena ler as suas "Meditações"
portucalia a 21 de Junho de 2012 às 22:40

PORTUCÁLIA é um blog que demonstra para os nossos irmãos portugueses como o governo brasileiro é corrupto. Não se iludam com o sr. Lula.Textos literários e até poesia serão buscados em vários autores.
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