PORTUCÁLIA

Junho 15 2012

Getúlio por Lira

Primeiro livro da biografia em três volumes de Getúlio Vargas escrita por Lira Neto chega às livrarias com a história de 1882 a 1930

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RENATO PARADA/DIVULGAÇÃO
Lira Neto: "Fico inteiramente obcecado pelo biografado a cada novo livro"

 

 

Quando os três volumes da biografia de Getúlio Vargas estiverem publicados, o jornalista Lira Neto terá escrito mais de 1800 páginas – sem contar as centenas de laudas com notas, referências bibliográficas e fotos – e dedicado aproximadamente cinco anos de trabalho ao retrato do principal político brasileiro do século XX.


O primeiro terço da obra acaba de chegar às livrarias, com a história da infância, juventude e ascensão política de Getúlio Dornelles Vargas, incluindo os primeiros anos em São Borja (RS) e a atuação política republicana em Porto Alegre até a posse como chefe do governo provisório instaurado pela Revolução de 1930.


Os outros dois volumes devem ser publicados respectivamente em 2013 e 2014, cobrindo, o primeiro, os 15 anos que somam a chamada “Era Vargas” e o Estado Novo; o segundo, sua saída e retorno ao poder pelo voto até o suicídio.


“Como sempre, a pesquisa e a reescrita do texto continua até o dia em que o editor consegue, enfim, me arrancar os originais das mãos”, escreve por e-mail o cearense Lira Neto, 48, sobre o andamento dos próximos livros. Abaixo, ele, que mora em São Paulo, responde entrevista sobre questões envolvidas na pesquisa e escrita da biografia de Getúlio.


O POVO - Dois anos e meio parece ser pouco tempo para um trabalho dessa magnitude – qualquer tese de doutorado dura praticamente o dobro disso. Essa produtividade se deve a uma obsessão ou ao domínio de um método biográfico?

Lira Neto - Creio que o segredo é a disciplina rigorosa de trabalho e a dedicação em tempo integral ao ofício. Trabalho no mínimo cerca de 10 horas diárias, seja na fase de pesquisa, seja na fase de redação do texto. É claro que ter desenvolvido uma metodologia própria, ao longo do tempo, após ter escrito seis biografias, também ajuda. E talvez você tenha usado a palavra certa: obsessão. 

 

OP - Você cita o esclarecimento a partir de documentos originais das acusações de assassinato feitas contra Getúlio como duas das novidades que sua biografia acrescenta à já vasta bibliografia sobre o político. Que outros fatos inéditos podem lhe ser creditados?

Lira - Ter esclarecido casos como o do assassinato do índio Tibúrcio Fongue — crime atribuído a Getúlio Vargas — sem dúvida constitui um trunfo. O filho de Getúlio, Lutero, sustentava a tese de homonímia. Mas, como jornalista, eu não poderia me satisfazer apenas com a versão familiar. Precisava de provas efetivas. Consegui localizar não só o processo como a certidão de nascimento do Getúlio homônimo. No caso de Ouro Preto, que envolveu a morte de um estudante [da qual o autor foi Viriato Vargas, irmão mais velho de Getúlio], o filho do juiz que cuidou do caso, Augusto de Lima Jr., chegou a publicar excertos do processo, de modo seletivo, há mais de 60 anos. Por fim, no caso do discurso de formatura de Getúlio, por exemplo, os poucos trechos de que se tinha notícia omitiam uma parte fundamental do documento original: o ataque violento à fé cristã. Por causa disso, no arquivo da Fundação Getúlio Vargas, existe uma carta assinada pela filha, Alzira Vargas, dizendo que o discurso jamais poderia ser revelado. 

 

OP - A narrativa do livro preza pelos detalhes nas reconstituições. Você os garimpa em documentos ou se permite imaginá-los dentro dos limites da verossimilhança?

Lira - Sou um repórter. Daria um péssimo ficcionista. Não consigo inventar uma boa história até mesmo para fazer minhas filhas pequenas dormirem. Toda informação do livro está referendada por notas que remetem às fontes de pesquisa. Ao mesmo tempo, é preciso que se diga que qualquer narrativa histórica ou jornalística é, essencialmente, um produto de segunda natureza, uma reconstrução. Além disso, os próprios cientistas reconhecem que, sem alguma imaginação, não há a possibilidade de se fazer ciência. Isso não significa dizer que estejamos no terreno da ficção. Contudo, atenção: o maior vício de um biógrafo é deixar a imaginação viajar onde a apuração falhou. Assim não se faz biografia, mas “romance histórico”. 

 

OP - Relegar a maioria das referências bibliográficas às notas não mistifica a construção histórica em favor da fluidez da narrativa?

Lira - O rigor da pesquisa jamais será incompatível com o prazer do texto. Não faço “narrativa romanceada”. A questão embute uma distorção conceitual que, felizmente, está sendo superada no próprio mundo acadêmico. As notas estão onde deveriam estar: no final do volume. Das 600 páginas do livro, pelo menos 100 delas são de referências às fontes de pesquisa. O leitor não especializado viverá muito bem sem elas. Mas os pesquisadores que se interessarem em cotejar ou aprofundar pesquisas paralelas encontrarão ali o mapa da mina. O primeiro volume da trilogia tem recebido excelentes críticas do meio acadêmico. Ao mesmo tempo, a imprensa tem destacado a fluência da narrativa como um dos atrativos do livro. Ou seja: está saindo de moda a desculpa dos que escrevem mal com o objetivo de parecerem herméticos e profundos. 

 

OP - O gauchismo é o pano de fundo da formação de Getúlio, que aparece no primeiro volume da biografia profundamente identificado com a história política do estado. O que descobriu do mergulho nessa cultura gaúcha?

Lira - Não descobri a pólvora. Apenas busco mostrar, com base em farta documentação, como muitas das características do getulismo já estão presentes no caldo regional em que o biografado nasceu e se formou politicamente. A hipertrofia do Executivo, o desdém pela democracia representativa, o culto ao poder unipessoal, tudo isso estava na base da ditadura pretensamente científica dos caudilhos da primeira era republicana. No Rio Grande, a palavra “ditadura” sequer tinha conotação negativa. 

 

OP - O livro revela os dotes de Getúlio Vargas para a literatura. O político teria talento para a arte?

Lira - Muitos de seus escritos soariam ilegíveis e repolhudos ao leitor atual. Porém, o homem tinha lá seu estilo, tributário que era da narrativa de Zola, do evolucionismo de Darwin, da filosofia perturbadora de Nietzsche. 

 

publicado por portucalia às 17:35

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